December 4th, 2011

brooklyn

sombra

Estou a ler mais um livro do Colm Tóibín, The Empty Family, mais uma admirável colectânea de contos. Uma das razões porque eu gosto tanto da escrita do Tóibín tem a ver com a maneira precisa como ele capta emoções e sentimentos, não aqueles mais fortes e evidentes, mas os mais subtis, aqueles que são tão delicados que muitas vezes nem nós próprios somos capazes de lhes dar um nome.

Num dos contos do livro, uma mulher, Lady Gregory, casada com um homem bastante mais velho, tem um affair com um poeta, também casado, quando os dois casais se encontram e convivem, no Cairo. O conto é todo narrado da perspectiva de Lady Gregory, do seu espírito, daquilo que ocupa e perturba a sua mente e o seu coração.

Houve duas passagens neste conto que literalmente me fizeram parar de ler e ficar ali a pensar em como era possível o Colm Tóibín descrever emoções que eu já senti, e que nunca tinha tido a capacidade de os racionalizar e conceptualizar de forma tão cristalina.

No primeiro trecho, Blunt, o poeta, leva Lady Gregory para o quarto onde escreve, para lhe ler o seu último poema. Fecha a porta à chave, e depois de ler o poema duas vezes, beija-a. ”He began to kiss her. Her only thought was that this might be the single chance she would get in her life to associate with beauty. Like a tourist in the vicinity of a great temple, she thought it would be a mistake to pass it by; it would be something she would only regret. She did not think it would last long or mean much”. Quem nunca sucumbiu a essa hipótese de se associar à beleza, de visitar um templo só porque se passou muito perto dele, sem qualquer compromisso, só porque se acredita que o remorso de o ter negado seria maior do que as marcas dessa associação, que atire a primeira pedra.

Na segunda passagem, o affair com Blunt já terminou e Lady Gregory atormenta-se com o facto de não ter nada de material, de sólido, que lhe diga que aconteceu de facto qualquer coisa entre os dois. ”She was lonely without Blunt, but she was lonelier at the idea that the world went on as though she had not loved him. Time would pass and their actions and feelings would seem like a shadow of actions and feelings, but less than a shadow in fact, because cast by something that now had no real substance.”

Acho este trecho de uma agudeza pungente, sobretudo quando se viveram já casos de amor, profundo e intenso, que ficaram sempre na clandestinidade, que nunca foram partilhados com familiares e amigos, vividos em segredo e sempre na maior descrição, e que depois de acabarem nada deles resta, não há casa de família a partilhar, não há lista de bens, não há aliviados ou dolorosos processos de separação por mútuo acordo ou de divórcio litigioso. Tudo o que resta, a arqueologia de um amor, as suas ruínas, apenas existe na nossa memória. Cicatrizes invisíveis. Menos do que uma sombra, de facto, porque nada com real substância incide sobre elas.