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o corpo é que paga
rosas
innersmile
Estive a ver há bocadinho, no canal 2 da RTP, o documentário Arte no Tempo da Sida - 30 Anos Desde A Descoberta do Vírus. O título é um bocadinho enganador: o filme é muito mais sobre o que foram estes trinta anos de convívio com a Sida em Portugal, do que propriamente um enfoque sobre o que terá sido, digamos, a criação artística nos anos da cólera.

Está certo que o olhar do filme incide sobretudo o que será uma espécie de comunidade artística nacional, ou pelo menos pessoas com alguma visibilidade mediática, quer do lado das vítimas, quer dos autores dos depoimentos com que é construída parte significativa do filme. E se houve depoentes que tentaram fazer de algum modo um itinerário do que foi a construção cultural sob o signo da Sida, parte dos depoimentos eram muito mais genéricos do que isso. Sobretudo porque, como muito bem foi mencionado no filme, em Portugal, mercê da atávica mediocridade da nossa mentalidade, a maior parte dos doentes com Sida não se assume, porque para a generalidade das pessoas a seropositividade está inevitavelmente ligada a comportamentos sexuais "desviantes" (olha as aspas!)

Claro que uma das figuras mais destacadas do filme, por todas as razões, foi o António Variações. Agora o que de repente me bateu com uma força de quase revelação foi aperceber-me de que mal começo a ouvir os acordes iniciais de O Corpo É Que Paga, o meu corpo e a minha cabeça começam logo a sentir um entusiasmo, dançável mas não só, quase como se fosse a primeira vez que ouço a canção. É espantosa a capacidade de resistência desta canção, como muitas outras do Variações, a quase trinta anos de exposição e audições constantes. Esta canção transformou-se num lugar-comum, num clichet, é uma banalidade dita e repetida por toda a gente a propósito e a despropósito. E no entanto um tipo ouve-a fora do contexto e ela está intacta, cheia de força e de sentido.

Acho que não deve haver muito melhor maneira de assinalar o Dia Mundial da Luta Contra a Sida do que celebrar, sempre, e através de uma das suas mais perfeitas canções, a genialidade portuguesa do António Variações.