?

Log in

No account? Create an account

habemus papam (outra vez) 5*
rosas
innersmile
E antes de o fim de semana acabar ainda dei uma saltada ao cinema para ver Habemus Papam, do Nanni Moretti. Eu já tinha visto o filme há umas semanas, em clips no YouTube, mas queria revê-lo como deve de ser, em grande, numa sala de cinema. E ainda bem que o fiz, porque gostei mais do filme desta vez. Acho que ver um filme na net é bom porque se mata a fome (de cinema e de bolachas), porque se podem rever vezes sem conta as sequências de que mais gostamos. Mas captar as subtilezas de um filme, perceber-lhe a linguagem, absorver o poder das imagens e a sua capacidade de contar uma história, isso tem mesmo de ser na sala grande.

Para além da coreografia dos rituais religiosos, um dos aspectos que mais me impressionou no filme foi a forma como Moretti trata a igreja, como uma certa benevolência, respeitando-lhe as regras, os dogmas e o ritos, mas trazendo-a, e ela ou aos seus representantes, os cardeais, a uma certa infantilização, a uma candura que tem tanto de pureza como de imbecilidade (talvez a palavra seja demasiado forte, ficaria porventura melhor ‘palermice’).

Outro aspecto que me impressionou foi a maneira como Moretti e Michel Piccoli se esforçam para resgatar a personagem de Melville, dando-lhe espessura e conflito, tentando, enfim, fazer dela mais do que um dos indistintos e acriançados cardeais. Há no rosto e no jogo de Piccoli uma enorme ambiguidade, ora estamos no polo da serenidade ora no do terror, e essa dualidade, e a incerteza do desfecho, mantém-se até ao final, até ao discurso na varanda do Vaticano.

Já escrevi aqui, da outra vez, que este não é o cinema que me fez apaixonar por Nanni Moretti, o que não significa que seja um mau filme, antes pelo contrário. Mas desde La Stanza Del Figlio (que é um filme fascinante, um dos meus filmes preferidos), que o cinema de Moretti adquiriu uma certa abertura temática, interessando-se por histórias, ainda que nunca deixando de lado a preocupação política e social. Mas são filmes menos Moretticocêntricos, passe o palavrão. E se La Stanza e sobretudo Il Caimano eram filmes marcados por um certo negrume, este Habemus Papm, ainda que tão terrível como todos os outros, não deixa de ter uma certa serenidade, um certa predisposição para a luz. Uma certa beatitude, diriamos.