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bordoada
rosas
innersmile
Não tenho grande simpatia pelos movimentos de indignados e ocupas e outros do género, que agora estão na moda e têm direito a distinção mediática. Admito que seja uma reacção geracional, que eu seja um cota reaccionário e bota de elástico, mas o facto é que não os percebo. Soam-me assim a uma espécie de mistura entre os anarcas do meu tempo e uma certa atitude que pretende dar legitimidade política a pessoas que na realidade não pretendem ter qualquer tipo de responsabilidade ou compromisso social. Isto sem falar nas ganzas, nas cervejas, e nos filhos da classe média que estoiram os orçamentos familiares em boémias académicas enquanto tiram cursos inúteis em universidades privadas. O que é grave é que estes movimentos são muito facilmente permeáveis, e manipuláveis por grupos organizados e bem estruturados, ideologicamente inconfessáveis, que vivem da conflitualidade social violenta. E que percorrem, sem preconceitos, todo o espectro ideológico, dos radicalismos ultra-direitistas que infiltram as claques de futebol, aos cocktails molotov que incendiam os movimentos libertários da extrema-esquerda.

Em democracia, o direito à manifestação pública tem regras. As barreiras de metal nas manifestações estão lá porque marcam simbolicamente o limite entre entre o espaço onde a manifestação é a expressão de um direito democrático, daquele outro onde passa a ser uma ameaça à ordem pública, ou ja à segurança de bens e pessoas. Por isso quando os manifestantes derrubam uma barreira de metal, estão a legitimar o uso da força por parte da polícia.

Agora, a actuação das forças da ordem tem igualmente regras e limites, cuja violação é ainda mais perigosa do que a violação das regras que são impostas aos manifestantes. Normalmente, e atenta a especial natureza da função social que garantem, as polícias, em nome do Estado, têm recursos que ultrapassam aqueles que estão ao dispor dos cidadãos, ajam estes por sua iniciativa individual ou de modo organizado. É normal, e desejável, que assim seja. Esses recursos especiais têm geralmente dois objectivos. O primeiro é fazer das polícias organizações mais bem informadas, e por isso com uma maior capacidade de leitura e percepção do que está acontecer nas sociedades. O segundo é, quando há ameaça de situações de ruptura ou conflito, permitir-lhes agir com rapidez e eficácia de forma a ser reposta a ordem pública e a legalidade.

Não percebo, por isso, e era este o ponto onde queria chegar, qual destes dois objectivos é servido quando andam polícias à paisana a distribuir bordoada pelos manifestantes. Entendo que haja polícias à paisana, para se poderem infiltrar entre os movimentos e tentar perceber melhor o que está a acontecer. Entendo que haja fortes contingentes de polícia de intervenção, visando dissuadir e, quanto isso falha, reprimir tentativas de violação da legalidade, com maior ou menor recurso à violência. Já não percebo que haja polícias á paisana que de repente desatam eles próprios a agir com violência sobre os manifestantes.

Há uma verdade elementar e antiga da ciência política. Quanto mais frágeis e inseguros os Estados, e os governos que em cada momento os dirigem, maior a tentação de recorrer à violência e a práticas de legalidade duvidosa, para garantir, já não a ordem pública, já não a segurança de bens e pessoas, mas os próprios poderes instalados e as suas lógicas e prerrogativas. Chama-se a isso terrorismo de estado.
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