November 16th, 2011

ghostrain

sunrise with seamonsters



Terminei há pouco a leitura de Sunrise With Seamonsters, de Paul Theroux, um volume de quinhentas páginas, de tipo pequeno e mancha cerrada, que, com o subtítulo Travels and Discoveries, reúne textos, a maioria previamente publicados, escritos entre os anos de 1964 e 1984.

Da cerca de meia centena de títulos, não li uma meia dúzia talvez. Textos que comecei mas que me aborreceram e eu passei à frente. Todos os restantes li com prazer e entusiasmo, reli trechos e sublinhei passagens. Trata-se de uma colectânea excelente, que exemplifica o melhor da escrita de Paul Theroux. As temáticas são variadas, mas os meus preferidos, acho eu, foram os textos que se referiam a África (os iniciais do livro, referentes à época em que o autor viveu, primeiro no Malawi e depois no Uganda) e de um modo geral todos os que se referem aos caminhos de ferro e a viagens de comboio.

Theroux é verdadeiramente fascinado por comboios, que ele considera a quintessência da viagem, e eu partilho com ele esse fascínio, apesar de nunca ter feito nenhuma viagem grande de comboio (nunca fiz inter-rail, por exemplo). Lembro-me de, em criança, ter feito algumas viagens de comboio entre Lourenço Marques e Joanesburgo, na África do Sul, sobretudo por causa da excitação, que guardei para sempre, do wagon-lit e da carruagem restaurante.

Em 2006, fiz duas longas viagens de comboio, entre Kuala Lumpur e Singapura. Já escrevi aqui sobre essas viagens seguramente, que foram feitas, uma delas, para Singapura, numa carruagem aberta cheia de beliches de um lado e do outro do corredor central. O regresso a Kuala Lumpur foi feito num camarote com duas camas, com casa de banho própria, e direito a pequeno-almoço no camarote (arroz, claro). Lembrei-me desta viagem a propósito do relato que Theroux faz de uma viagem de comboio que começou no Paquistão e terminou no Bangladesh e atravessou todo o imenso subcontinente indiano. Viagens tão imensas que de algumas delas em vez de se perguntar a que horas o comboio chegava ao seu destino, perguntava-se antes em que dia.

Theroux relata, entre muitas coisas, e seguramente mais interessantes, a complicação que foi passar as fronteiras. E foi por isso que me lembrei da viagem entre KL e Singapura. Na viagem para Singapura, o comboio parou, de madrugada, ainda era de noite, em Johor Bahru. Todos os passageiros tiveram de descer do comboio, e eram muitos. Muitos mesmo, uma multidão imensa, que alvoraçou a madrugada. O comboio saiu de KL Domingo à noite, e era o meio de transporte de muitos trabalhadores e estudantes da Malásia que faziam a sua vida em Singapura mas vinham a casa aos fins de semana. Formaram-se enormes filas para passar o controlo dos passaportes e depois, mais adiante, o controlo alfandegário. Foi uma cena completamente irreal, depois de muitas horas num comboio completamente adormecido, a confusão e o burburinho da multidão, num posto fronteiriço no meio de nenhures, a uma hora morta da madrugada.

No regresso, os procedimentos de fronteira foram feitos na própria estação de Singapura. Trata-se de uma estação que apenas serve a linha ferroviária para a Malásia e por isso, numa cidade imaculadamente limpa e nova, deve ser o único lugar degradado e feio. Novamente filas enormes para mostrar o passaporte e para o controlo aduaneiro, uma grande confusão de gente e bagagens, em que nunca se percebia bem quem estava à nossa frente na fila ou atrás de nós ou mesmo se a fila era exactamente ali onde estávamos. O ponto, no entanto, e como Paul Theroux refere no seu relato, é que de repente o controlo fronteiriço estava feito, encontrávamo-nos instalados no nosso camarote, e o comboio partiu miraculosamente à hora marcada.