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innersmile
Pets é a peça mais recente de Olga Roriz, estreada em Lisboa, no Teatro Camões, no início do mês, e que foi apresentada ontem (e repete hoje) no Teatro da Cerca de São Bernardo, integrada numa residência da coreógrafa naquele teatro de Coimbra. Não é, na minha opinião, das peças mais conseguidas de OR, mas é seguramente uma peça muito importante no percurso da coreógrafa e da sua companhia.

Essa importância vem-lhe, por um lado, da ambição do discurso, que pretende revisitar, de forma crua e transgressora, o que tem sido a evolução da linguagem de Roriz, pelo menos nos últimos anos. São convocados para o palco momentos, movimentos, adereços, figurinos, ambientes musicais, que são familiares a quem tenha acompanhado as últimas peças, as dos últimos dez ou quinze anos.

Mas essa convocação é como já disse, trangressora, e a importância de Pets advém-lhe, de igual modo, da radicalidade do discurso. Parece que Roriz perdeu o medo de ousar, ou melhor, perdeu o respeito, já que nunca foi, ao nível da criação artística, propriamente uma artista medrosa. Ao longo das mais de duas horas da peça, Roriz nunca tem receio de ir longe de mais, de forçar as soluções ao ponto de elas rasgarem. É significativo que esse forçar dos limites resulte numa carga de grande agressividade, que consegue ser perturbadora e mesmo incómoda

Há dois aspectos que de certo modo já vêm sendo enunciados nas peças mais recentes de Olga Roriz, e que em Pets são mais evidentes. Um deles é a recusa da narrativa, uma opção que é sempre arriscada, porque retira ao espectador âncoras para a leitura do espectáculo, mas que o coloca num outro patamar de exigência e compromisso. Cada quadro de Pets parece enunciar um fio narrativo, que depois o seu desenvolvimento e construção se encarrega de estilhaçar.

Outro aspecto que Pets clarifica no trabalho de Olga Roriz tem a ver com a maneira como o espaço é tratado. O trabalho de coreografia de OR tem sempre uma componente muito significativa de encenação. Essa característica ainda está presente em Pets mas há um corte com a maneira muito estética e até um pouco formalista como isso costumava acontecer. De Pets não se poderá dizer, como se podia em relação a outras peças, que é um espectáculo ‘bonito’, o que, ao contrário de ser um defeito, representa antes um estímulo e um desafio.
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logro
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innersmile
"Segunda, 4 Novembro de 1991

«O que chega a parecer incrível é que, se nós imaginarmos que Jesus não é filho de Deus, a nossa civilização está assente sobre coisa nenhuma.» A frase é de José Saramago, a propósito do seu livro mais recente 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo', que eu estou cheio de vontade de ler. A ideia expressa na frase é notável. Com efeito, assusta pensar que toda a nossa civilização, toda a nossa cultura, enfim, toda a nossa história nos últimos dois mil anos (que é a única que tem alguma coisa a ver connosco), não passa de um logro. Como seria a vida se fossemos politeístas, ou, mais cruel ainda, se de todo nunca tivéssemos acreditado em Deus?"



Só uma actualização para dizer que quase vinte anos depois, ainda não li o livro de Saramago. Mas continua a não me faltar vontade.