October 24th, 2011

rosas

dove

Eu devia ter uns 12 ou 13 anos quando passou nos cinemas de Moçambique um filme intitulado The Dove, a história de um rapaz adolescente que fez uma tentativa de circum-navegação solitária a bordo de um pequeno veleiro. Lembro-me bem de que na altura o filme foi muito falado porque tinha cenas filmadas em Lourenço Marques, um dos ports-of-call da viagem.

Vi o filme mais do que uma vez, no cinema novo de Nampula, que ficava ali na zona do Sporting e do Liceu, muito perto de minha casa (tão perto que, durante a sua construção, o edifício foi um dos meus locais preferidos de brincadeira). Foi um coup-de-foudre. Durante muitos anos, depois da vinda para Portugal, tentei identificar o filme, procurar referências sobre ele, mas nada. Um dia, numa livraria em Londres, procurei numa livraria, num daqueles calhamaços enciclopédicos que inventariam todos os filmes, e encontrei pela primeira vez uma referência ao filme.

Tomei nota dos seus detalhes (título, actores, realizador, a banda sonora do John Barry, até o facto de ter sido produzido pelo Gregory Peck) sempre na esperança de um dia conseguir arranjar o filme. Que eu saiba, nunca foi editado em cassete vídeo ou em DVD, e nunca encontrei o ficheiro na net. Há no YouTube clips com imagens do filme e sobretudo com excertos da banda sonora. Tenho para aí numa pasta do computador ou numa pen drive fotografias que encontrei na net.

O filme tocou-me tanto, de maneira tão intensa, que hoje, quase quarenta anos depois, lembro-me muito pouco do filme mas permanece intacta a torrente de emoções que ele me despertou: a aventura, a liberdade, a solidão, a imensidão, tudo muito excessivo e transbordante. Tentando hoje em dia, como um adulto, fazer um insight ao miúdo que eu era quando o vi, tenho pensado muito se o que eu senti foi o apelo desmedido da aventura, ou se na verdade me terei apaixonado pelo protagonista da história, naquela que poderá ter sido uma das primeiras manifestações da minha homossexualidade. Não sei, francamente.

A minha vida encarregou-se de me afastar o mais possível desse meu sonho adolescente, de ter uma aventura que tivesse ao menos um paralelo com a história do herói do filme. Há muitas coisas que gostava de ter feito na vida e nunca fiz, umas porque não fui capaz, outras porque sempre achei que não seria capaz. A vida, a minha vida, a vida que fui capaz de viver, agarrou-me sempre à segurança da terra firme. E devo dizer que na maior parte do tempo nem sequer sinto ressentimentos ou desgosto em relação a essa minha incapacidade para o voo.

Mas hoje, depois do telejornal, estava a ver uma reportagem na RTP sobre um velejador solitário português, que uma jornalista acompanhou durante uma viagem entre a Bretanha e Peniche. Às tantas, já num ponto adiantado da reportagem, quando o veleiro navegava veloz creio que já em mar português, com os golfinhos a saltar à frente da embarcação, o puto que eu era quando vi o The Dove há tantas décadas, de repente materializou-se ali, no sofá, em frente ao televisor, a sonhar que um dia, quando fizesse dezasseis anos, havia de fazer assim uma viagem de navegação à volta do mundo num veleiro solitário.

Acho que o fundo dos meus olhos ainda não secou completamente.