?

Log in

No account? Create an account

o grande inquisidor
rosas
innersmile


Quando acabei o quinto ano do liceu (aquilo que será hoje o nono), tive de escolher se ía para letras ou para ciências. No liceu de Mirandela, para onde fui despachado como uma encomenda no serviço de retornos da descolonização, partilhava a mesma turma com a minha prima, e criou-se, na turma e na família, uma certa ideia de que eu era bom em letras e a minha prima em ciências. Eu era um razoável aluno a ambas as áreas, com excepção de físico-químicas, sobretudo a parte da química, que nas voltas da revolução e da independência de Moçambique, tinha ficado fora do programa por falta de professores. Mas segui a tendência e matriculei-me em letras. Desde esse dia afastei-me de forma irremediável das disciplinas científicas básicas e, mais do que incompetência, a minha ignorância nessas matérias é abissal.

No entanto, desde esses meus quinze anos que trago um pequeno cientista dentro de mim, ou pelo menos alguém que olha sempre para a ciência com o fascínio que merecem os milagres. E só isso, parece-me, é que justifica que, ainda que com a mediação da literatura, volte de vez em quando à ciência. E justifica ainda porque é que passei as duas últimas semanas entretido com a fissão nuclear, a teoria da relatividade, os neutrinos e a velocidade da luz.

No entanto, acho que o que me levou ao livro de João Magueijo, O Grande Inquisidor (com o subtítulo explicativo de “A vida extraordinária e o desaparecimento misterioso de Ettore Majorana, génio atormentado da era nuclear”) foi o mistério da vida e do desaparecimento de Ettore Majorana, um cientista italiano pouco mais jovem do que o século XX, e que desapareceu em circunstâncias muito estranhas, em Março de 38.

O livro tem três planos distintos, mas que se interpenetram. O primeiro é, digamos, o do esforço de reconstituição biográfica de Majorana, no aspecto pessoal, mesmo íntimo, mas também do seu papel no ambiente científico das primeiras décadas do século. O segundo, faz uma espécie de síntese de todas as teorias, umas mais outras menos especulativas, que procuraram dar sentido ao desaparecimento de Majorana. Natural da Sícilia mas professor em Nápoles, Ettore Majorana escreveu duas cartas de despedida, uma dirigida ao director do seu departamento universitário e a outra à família, em que a intenção de suicídio era clara ainda que não inteiramente explícita, e apanhou um barco para Palermo. Já na Sícilia, escreveu nova carta ao director do departamento da universidade, pedindo-lhe para não ligar à sua carta anterior, a de despedida. Aparentemente apanhou novo barco, ou pelo menos comprou o bilhete, de regresso a Nápoles, e nunca mais foi visto.

O último plano do livro de Magueijo tem a ver com a discussão dos contributos de Majorana para a física nuclear e a mecânica quântica, nomeadamente com a descoberta do neutrino. Como é óbvio é a parte mais complexa, pelo menos para mim, não obstante o autor se esforçar para que os seus ensinamentos possa ser compreendidos por qualquer leitor normal, ou seja, não estamos perante uma discussão teórica, mas sim perante uma obra de divulgação científica, dirigida ao grande público.

Em honra de Magueijo deve dizer-se que, mesmo nas partes em que o discurso é mais exigente, o livro se lê com grande facilidade e prazer. Magueijo é claramente fascinado pela figura, humana e de cientista, de Ettore Majorana, e consegue transmitir-nos a medida e a razão desse fascínio. A sua investigação em relação a Majorana incluiu entrevistas a familiares e a outras pessoas que pudessem ter alguma coisa a dizer. Mas Magueijo municiou-se igualmente de um certo aparato literário e filosófico, o que francamente acrescenta interesse e espessura à obra. O único defeito do livro, digamos assim, é a personalidade do autor ser tão transbordante que não pára de se imiscuir no livro, que nalgumas partes parece ser mais sobre Magueijo do que sobre Majorana. Mas com justiça é preciso referir que mesmo assim, isso nunca chega a ser propriamente irritante, e, pelo contrário, até dá uma certa panache ao livro. E fiquei com vontade de ler o livro anterior de João Magueijo, Mais Rápido Que a Luz.