October 15th, 2011

rosas

habemus papam 4*

Andava ansioso para ver o mais recente filme do Nanni Moretti, Habemus Papam, e eis que o filme está disponível no YouTube, em suaves sete prestações de 15 minutos cada uma. Ok, não será a melhor forma de ver um filme, ainda por cima com o som no original e sem legendas, mas mesmo assim foi uma oportunidade irresistível.

E gostei muito do filme, que tem mais a ver com o cinema mais recente de Moretti, nomeadamente O Caimão, do que com os seus filmes semi-autobiográficos que, para ser sincero, estiveram na origem da paixão que tenho pelo seu cinema: Caro Diario e Aprile, é claro, mas sobretudo Palombella Rossa, que foi o primeiro filme que vi do realizador e que foi uma espécie de revelação miraculosa.

Admitindo que possa ter perdido parte substancial do filme, por não perceber os diálogos, pareceu-me uma fita relativamente simples, com uma mensagem pouco complexa, e até um pouco linear. Mas tem momentos de Moretti vintage, e com a vantagem de que é possível rever e rever o clip inúmeras vezes (quer dizer, pelo menos até alguém reclamar direitos sobre os seus conteúdos e mandar retirar os clips do YouTube).

Toda a sequência inicial, a do conclave reunido para eleger um novo Papa, é sublime de tão bem feita, na atenção aos pormenores, na gestão dos tempos, no modo como a câmara trata o movimento humano como se se tratasse de uma coreografia. Depois, mais à frente, há outro momento Moretti de oiro, quando o psicanalista chamado para aconselhar o Papa recém-eleito (personagem desempenhada pelo próprio realizador) decide organizar um torneio de voleibol entre os cardeais participantes no conclave, com as equipas organizadas por continentes (com claríssima desvantagem para a equipa da Oceânia). Ok, é evocativa de outras sequências do cinema de Nanni Moretti, mas se calhar é isso, esse factor de reconhecimento, que a torna tão irresistivelmente divertida.

Em suma, podemos não estar perante o melhor do melhor de Moretti, mas mesmo assim é um filme a não perder, por morettianos obcecados e não só. E ainda por cima traz de volta o enorme Michel Piccoli numa daquelas interpretações em que a sombra e a luz se entretêm a disputar, quase ao segundo e ao milímetro, o mesmo rosto e o mesmo olhar. E enquanto espero pelo filme no grande ecrã, espero que o YouTube me permita revê-lo muitas vezes (para provar que o innersmile presta serviço público, aqui fica o link para a primeira parte do filme; depois, é só seguir as setas).