October 2nd, 2011

rosas

cartas

A semana passada a minha mãe deu-me uma carta, que encontrou lá em casa, nas coisas que eu lá deixei, que a minha avó me escreveu em Junho de 1987. É incrível que ao ler a carta da minha avó consigo fazer um mapa bastante fiel do que era a minha vida na altura, nomeadamente da minha vida afectiva. Tenho muitas cartas da minha avó, inclusivamente algumas que me escreveu para Londres, quando lá estive doente. Através das cartas que sempre escreveu (para as filhas, para os netos, para vários parentes e muitos amigos) a minha avó conseguiu, ao longo de toda a sua vida, manter o contacto entre muitas das pessoas que conheceu ao longo da vida e, é claro, entre a família mais próxima. Enquanto foi viva, a minha avó constituiu sempre a corda forte que nos manteve ligados. Depois de ela falecer, foram as filhas, a minha mãe e as minhas tias, que assumiram esse papel, e é raro o dia em que não se falam ao telefone e mantêm actualizadas entre elas as novidades da família. Curiosamente, nos últimos tempos também a minha prima direita mais velha tem começado a assumir esse papel, talvez preparando-se, inconscientemente, para o tempo em que a nossa geração, a dos primos direitos, seja a mais velha da família.

Quando a minha avó me escreveu a carta estava a caminho dos 78 anos (nasceu em 1909, quase um ano antes da República). Menos dois do que a minha mãe tem agora. E naturalmente na minha mente a minha mãe é sempre muito mais nova do que a minha avó. Quando faleceu, em Abril de 93, tinha 83 anos e meio. Isto das idades e do tempo, e do que isso significa na vida de uma pessoa, naquilo que é essencial, fascina-me muito, ao ponto de ser, por vezes, uma obsessão. Suponho que tempo e memória seja aquilo que mais me define, se não perante os outros, pelo menos perante mim próprio. Lembro-me sempre de um dos apontamentos que a Marguerite Yourcenar acrescentou à edição das Memórias de Adriano, em que diz que bastavam vinte e cinco velhos numa sala para ligar o tempo de Adriano ao nosso.

Ontem, como acontece todos os anos, lembrei-me da minha avó, porque era o dia do seu aniversário.