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os maias
rosas
innersmile


"Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
- Falhámos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «Vou ser assim, porque a beleza está em ser assim.» E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente."


Adorei Os Maias. Tinha gostado bastante do livro quando o li, com dezasseis ou dezassete anos, mas agora, tenho a certeza, o prazer foi ainda maior.

Acho que realmente deve ser o melhor romance escrito em língua portuguesa, e poucos escritores devem atingir o domínio, quer da escrita quer da narrativa, quer do alcance humanista e social da literatura, que o Eça de Queirós tinha (talvez, e ressalvo que conheço pouquíssimo de literatura brasileira, apenas Machado de Assis o iguale).

O que mais me surpreendeu nesta leitura d'Os Maias foi o sentido de humor. Não só a ironia, finíssima, e o sarcasmo, impiedoso, mas variadíssimos registos de humor. O humor ao serviço da mais acutilante critica social, mas também o humor só por si, por ser divertido. O final do livro é exemplar: Carlos e Ega, depois de uma nostálgica visita ao Ramalhete, caminham dolentemente, afirmando que nada na vida merece o mínimo esforço, que nem a coroa imperial de Carlos V lhes faria apressar o passo. Entretanto reparam que estão atrasados para jantar. Passa um 'americano' e desatam os dois a correr rua abaixo para o apanhar.

Mas este final ilustra igualmente outra coisa que me impressionou, e que é a maneira implacável com que Eça trata as suas personagens. A maior parte delas são risíveis, quando não mesmo ridículas. E há-as detestáveis, como o Dâmaso ou o Eusébiozinho. Talvez só o Ega e o avô Afonso saiam menos mal-tratados. Mas mesmo o Ega e o próprio Carlos não escapam ao juízo impiedoso que Eça faz dos homens do seu tempo.
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