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o funcionário
rosas
innersmile
Num país que vive sob um regime ditatorial prepara-se, com grande azáfama e elevado sentido de estado, uma eleição presidencial.

Numa repartição pública, um modesto funcionário é chamado ao gabinete do director. Na conversa, em que participa também um representante da polícia secreta, é explicado ao funcionário que a fim de manter a legalidade democrática das eleições, algumas pessoas foram seleccionadas para votar num candidato oposicionista fantoche, de forma a que o actual presidente e principal candidato não reúna a totalidade dos votos. É dito ao funcionário que ele foi um dos escolhidos, e que deve encarar a sua missão com sentido do dever e amor à pátria.

Preocupado e medroso, o funcionário vai para casa e conta o sucedido à mulher. Esta, por precaução, entende que é melhor retirar-se durante o período eleitoral, juntamente com os filhos, para a aldeia onde reside a sua família. O funcionário fica sozinho e, no dia marcado, comparece na assembleia de voto onde, disciplinado e cumpridor, vota no candidato oposicionista.

O presidente, como era esperado, vence as eleições com uns respeitáveis noventa e sete vírgula três por cento dos votos. São contabilizados zero vírgula nove por cento de votos em branco, e um vírgula oito por cento de votos no candidato oposicionista.

Duas semanas depois das eleições o candidato oposicionista, anunciando que não tem condições de segurança para continuar a viver no país, decide exilar-se numa cidade estrangeira, onde tem à sua disposição um apartamento situado numa avenida central e um emprego bem remunerado numa multinacional da indústria extractora.

Nessa noite, batem à porta do apartamento onde o funcionário continua a viver sozinho, uma vez que a mulher e os filhos continuam sem regressar. A polícia secreta, no seguimento de uma denúncia anónima, decide prender o funcionário sob a acusação de subversão e de apoio ao candidato oposicionista.
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