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os maias
rosas
innersmile


Eu tinha 16 ou 17 anos, andava naquilo que então se chamava o 2º ano do curso complementar (e que hoje corresponderá ao 11º ano), quando li, no programa obrigatório de literatura portuguesa, os Maias, do Eça de Queirós. Durante muito tempo conseguia repetir de cor o primeiro parágrafo do livro, ou pelo menos a sua frase inicial:

"A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data."

Há muito tempo que andava cheio de vontade de reler a obra, mas há sempre livros novos que se metem no caminho. Mas a sucessão de thrillers que acabei de ler, todos muito rápidos e intrigantes, deu-me vontade de ler um livro mais substancial, mais pausado, mais demorado. De modo que no fim de semana, mal fechei o policial que estava a ler, fui à estante buscar o meu velhíssimo exemplar d’ Os Maias, o mesmo que tinha lido no tempo do liceu.

Ainda nem a um terço do livro cheguei, isto vai ser coisa para umas semanas valentes, mas há coisas que são já de assinalar. Em primeiro lugar, a qualidade da escrita, o gozo supremo de ler uma frase perfeita, a língua portuguesa elevada a um nível sem par. Depois, este sistema perfeito está todo ao serviço da narrativa. Eça era, como se sabe, um observador rigoroso e acutilante da sociedade do seu tempo, mas este lado de critica social e de mentalidades nunca se despega do enredo do romance, da necessidade de fazer a história progredir, e sempre com um domínio exemplar do tempo. Tudo isto, por acréscimo, é feito com um humor, uma graça, uma ironia, uma leveza, que nos enleia e eleva.

Finalmente, a actualidade do retrato. Eça podia estar a falar do tempo presente, das coisas que estão neste momento a passar nos telejornais. Poder-se-ia dizer que Portugal não evoluiu, que o que era verdade em finais do século XIX continua a sê-lo em princípios do XXI. Mas é mais do que isso, e o mérito é todo do escritor, que capta aquilo que em nós é essencial, que faz parte do nosso código genético societário, e isso, sim, não muda, ou muda muito lenta e dificilmente. Um dia destes li este trecho e não pude deixar de me espantar com a actualidade da coisa:

"O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta — cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...

Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.

— Num galopezinho muito seguro e muito a direito — disse o Cohen, sorrindo. — Ah! sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável; é como quem faz uma soma..."