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os 11 de setembro
rosas
innersmile
Nos anos a seguir ao 11 de Setembro, que coincidiram com o boom de blogs, viam-se muitas reacções que tentavam apoucar a tragédia norte-americana por comparação com outros eventos mundiais. Havia designadamente muitas pessoas a dizer que a verdadeira tragédia do 11 de Setembro, aquela que valia a pena assinalar, era a do golpe de estado de Augusto Pinochet que pôs fim à vida de Salvador Allende, e impôs ao Chile uma ditadura que foi tão longa quanto violenta e sanguinária. Com a agravante de que os Estados Unidos tiveram uma intervenção directa no referido golpe, assustados com a deriva esquerdista de um governo que havia sido democraticamente eleito.

Já nessa altura eu achava que esta necessidade de opor ao 11 de Setembro norte-americano o 11 de Setembro chileno, era, além de um bocadinho histérica (tipo deixa-me falar mais alto para ver se me ouvem), completamente palerma e mesmo um bocadinho imbecil. Não há bons mortos e maus mortos, boas e más tragédias, e as circunstâncias entre os dois acontecimentos, e os contextos quer de lugar quer sobretudo de tempo histórico, eram tão diferentes e diversos, que compará-los, ainda por cima desta maneira tipo um contra outro e só pode haver um vencedor, era francamente ofensivo quer para as vítimas do 11 de Setembro de 2001, quer para a longuíssima e duradoura e sempre crescente lista de vítimas, de perseguidos, de assassinados, de torturados, de exilados, do 11 de Setembro de 1973.

Na altura atribuí esta reacção à habitual brotoeja de que a esquerda europeia sofre com tudo o que seja made in USA, particularmente assanhada como estava pelo ignominioso W. Bush. A verdade é que depois a coisa serenou, talvez por efeito da primavera Obama, e por isso fiquei um pouco surpreendido, e até ligeiramente nauseado, por ocasião do décimo aniversário dos atentados ao WTC, com o regresso dessa tentativa de menosprezar o valor e o significado do 11 de Setembro de 2001. E, como sempre, lá veio a retórica do golpe chileno de 73. Será que as pessoas não têm consciência que estão a instrumentalizar as vítimas da ditadura de Pinochet? Porque a verdade é que durante anos, pelo menos desde o fim da ditadura, ninguém se importava muito com o Chile e a sua memória do horror, a não ser as agendas de efemérides dos jornais (e a novela judiciária, diplomática e mediática que foi o julgamento do verdugo chileno), e o 11 de Setembro de 1973 só passou a ser invocado quando houve necessidade de opor qualquer coisa “de esquerda” aos mortos do imperialismo norte-americano.

O ponto é que não percebo esta necessidade, básica e maniqueísta, de pensar e reflectir por oposição, por conflito. Entendo-a no futebol, porque ele serve para isso, para fazermos a catarse emocional do nosso passado tribal, mas já nem sequer a percebo, por exemplo, na política, onde o racional deve prevalecer. Quanto mais neste tipo de acontecimentos disruptivos que nos tocam no essencial e fundamental da nossa vida em sociedades evoluídas. Passem-se eles em Nova Iorque ou em Santiago do Chile ou em Oslo ou no Sudão ou em Madrid ou em Cabul ou em Tóquio ou onde quer que seja. O mundo, e isto não deixa de ser irónico, não é um duelo ao sol num filme de cowboys em que o xerife acaba opor liquidar o bandido. Ou vice-versa, claro.
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