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your brother. remember?
rosas
innersmile
Fui ver no Sábado à noite, na sala do Teatrão, Your Brother, Remember?, uma peça do norte-americano Zachary Oberzan. Gostei imenso. Foi uma experiência muito intensa, forte, emocional mas também divertida e intelectualmente estimulante.

Durante os seus anos de adolescente, Zachary e o seu irmão Gator, com a ajuda da irmã Jenny, entretinham-se a filmar paródias de alguns dos seus filmes preferidos, entre eles um documentário um pouco grotesco chamado The Faces of Death (o título auto-explica-se) e sobretudo o filme Kickboxer, com o Jean Claude Van Damme, que é, e isto não é dispiciendo, a história de dois irmão e de como o mais novo vinga o mais velho. Vinte anos depois, mais velhos, mais pesados e com a gravidade que os caminhos da vidas sempre trazem, os irmãos decidem refilmar, quase cena por cena, diálogo por diálogo, as suas antigas paródias.

Na peça, Zachary Oberzan junta imagens das três proveniências: takes originais dos filmes, e takes quer das filmagens adolescentes quer das actuais. A montagem dos diversos segmentos não é linear, e há imagens sequênciais, lado a lado, e mesmo justapostas. Para além destas imagens, Oberzan junta-lhes ainda bloops das filmagens e clips de canções com letras adaptadas (On The Road Again passa a Overdosed Again, e Scarborough Fair, dos Simon and Garfunkel passa a ter um refrão dedicado à junk food). E junta ainda dois outros segmentos: um com histórias da prisão vividas por Gator, e outro com imagens de Gator a ressacar na cozinha da casa.

Em adição às imagens de video, Zachary, ao vivo, vai servindo um pouco de MC do espectáculo, apresentando as imagens de video mas sobretudo introduzindo momentos de reflexão. Tudo isto recorrendo aos sotaques afrancesados de Van Damme e à sua gestualidade muito shaolin, o que acrescenta alguma irisão ao discurso.

O resultado é um espectáculo muito forte, mas também muito moderno. Desde logo porque joga com um certo efeito YouTube dos clips de video, mas que ganha uma espessura dramática que, como é evidente, não tem nada a ver com a ligeireza dos clips que normalmente são disponibilizados no programa.

A peça aborda vários temas, sendo de modo particularmnete veemente um abordagem do tempo e dos efeitos da sua passagem nas pessoas. O que mais me tocou foi o tema da própria relação entre os irmãos. Embora aparentemente a relação entre Zachary e Gator se limite às paródias que se entretinham a fazer, há sempre uma tensão muito forte entre eles, já visível nas imagens da adolescência, mas que se acentuam quer pelas imagens adultas quer mesmo pela utilização muito caricatural dos excertos do filme original de Van Damnme. À intimidade familiar dos irmãos adolescentes, contrapõem-se as diferenças entre eles, o afastamento físico que marcou a maior parte das suas vidas adultas, e sobretudo as suas opções de vida e as implicações que elas tiveram quer na personalidade de cada um deles quer na própria relação fraterna.

No final da peça, Zachary interpreta mais uma das suas adaptações de canções pop, desta vez de Video Killed the Radio Star, dos Buggles (que já tinha estado presente no início da peça, um pouco à laia de genérico). No fim da canção, ele canta, com um destinatário muito evidente: you are the video star.
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