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a cena do ódio
rosas
innersmile
Comecei a ouvir o programa há uns meses, por mero acaso das minhas manhãs dominicais: normalmente vou a pé até à livraria para tomar o pequeno almoço e levo o telemóvel sintonizado na rádio pour me tenir compagnie. Chama-se A Cena do Ódio, é da autoria de David Ferreira e Catarina Limão, passa na Antena 1 entre as onze e o meio-dia, e é o melhor programa da rádio portuguesa.

A propósito, na mesma estação e no mesmo dia, mas um pouco mais tarde, a partir das duas da tarde, passa o segundo melhor programa da rádio portuguesa, Melhor do Que o Silêncio, da autoria de João Gobern, dedicado à bossa nova e à MPB em geral, com epicentro em João Gilberto. O nome do programa é retirado de uma canção de Caetano Veloso, que diz precisamente que “melhor do que silêncio só João”. Por isso esperemos que este João a que se refere o programa seja mesmo o de Gilberto, e não o do autor do programa.

Voltando à Cena do Ódio, trata-se de uma programa de canções, daquilo a que poderíamos chamar a música popular no seu sentido mais lato, sobretudo do ponto de vista geográfico e cultural. Cada programa tem um tema, e um guião muito mínimo que sublinha e contextualiza a relação entre o tema e as canções escolhidas, ou mesmo os seus autores ou intérpretes. Os temas são sempre menores, ou pouco recomendáveis: vícios, defeitos, pecados capitais, sentimentos embaraçosos, ou mesmo aquelas pequenas fraquezas que todos temos nas horas mais impuras. Enfim, um rol de desgraças, coisas que, parafraseando Régio, teríamos pudor de contar seja a quem for, mas que, de modo insuspeito e muito desavergonhadamente, a música popular, do rock ao fado, do tango à chanson, do samba à folk, passando por tudo o resto, sempre se entreteve a cantar, a lucubrar ou mesmo a louvar (como o Johnny Cash dizia numa canção, recordada num programa dedicado ao crime, se não estou em erro, ‘I shot a man in Reno just to watch him die’).

Eu adoro o programa. Recordo grandes temas, aprendo uns quantos, e sobretudo ouço com uma nova atenção tantas canções. Surpreendem-me algumas escolhas (“como é que este gajo se lembrou disto?”) e surpreende-me que algumas escolhas sejam tão evidentes (começar o programa dedicado ao ciume com a Elza Soares a cantar Dor de Cotovelo, de Caetano Veloso, é um verdadeiro ovo de colombo!) Sinto que o programa dialoga comigo, me provoca, apela à minha memória e ao meu humor. Diverte-me, como se eu fosse seu cúmplice, e ensina-me, como se eu fosse o caloiro do curso mais desejado da faculdade. Adoraria fazer parte da equipa que o cria, exactamente da mesma maneira como gostaria de ser um dos tipos que se lembra das canções para a série Glee, só pelo gozo de estar ali a sacar canções da memória, e a trabalhar os seus sentidos e as suas ligações aos temas escolhidos.

O programa já teve não-sei-quantas emissões entre Janeiro e Julho, repetiu algumas delas durante este mês de Agosto, e já a partir do próximo Domingo arranca com novos temas. Pode ser ouvido nos rádios a pilhas, nos auto-rádios, nos hi-fis, nos sintonizadores todos xpto, nos telemóveis (claro!), e nas emissões on-line da Antena 1 no site da rtp.pt. Aliás neste site estão os podcasts de todas as emissões já transmitidas, o que constitui quer um arquivo notável, quer sobretudo horas e horas do incomparável prazer de ouvir boa rádio.