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josé manuel osório, fontes rocha, raúl ruiz
rosas
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No espaço de poucos dias, o fado perdeu dois dos seus nomes grandes. Primeiro deixou-nos o José Manuel Osório, cantor mas também estudioso e divulgador do fado. Osório era também, e não é dispiciendo referi-lo, nem abuso da reserva da intimidade, um dos mais antigos sobreviventes na luta contra a Sida, uma batalha que ele assumiu publicamente como forma de contrariar o peso do anátema e do preconceito. 'Quanto Tempo - Uma Criança no Olhar' foi um livro que reuniu, sobre a forma de uma longa entrevista, José Manuel Osório ao seu filho, o jornalista Luís Osório. Li o livro já há alguns anos, quando foi editado, e permanece até hoje o desassombro de uma conversa difícil e complexa entre duas pessoas tão próximas e tão distantes uma da outra.

José Fontes Rocha, o outro nome maior do fado que nos deixou, era muito muito mais do que um dos maiores acompanhadores da Amália Rodrigues, e sê-lo já era muito. Fontes Rocha foi o guitarrista da fase Oulman de Amália, e a sua guitarra leve, solta, lírica e alegre, esvoaçante, marcou tanto esses discos como as composições de Alain, os poemas dos grandes poetas da língua, ou mesmo a voz impar de Amália. Mas Fontes Rocha, como disse, foi ainda mais do que isso, um músico, executante e arranjador genial, com um domínio perfeito do seu instrumento, era um verdadeiro virtuoso, ou seja, tinha a humildade de saber que o talento só fazia sentido quando estava ao serviço da música. Mas a dádiva de Fontes Rocha à guitarra portuguesa não morre consigo. O seu neto, Ricardo Rocha sai ao avô em tudo o que é essencial, sobretudo na criatividade e na determinação de construir uma música própria, sua. Tive a sorte de já o ter ouvido tocar ao vivo, e o seu talento é extraordinário.

Mas a cultura portuguesa perdeu por estes dias um outro dos seus grandes vultos. Apesar de chileno de nascimento, e de ter uma carreira internacional, sobretudo europeia, Raúl Ruiz estava intimamente ligado a Portugal e ao cinema nacional. Não só porque era português um dos seus produtores, mas sobretudo porque fez inúmeros filmes no nosso país. O último foi Mistérios de Lisboa, uma adaptação grandiosa, em tamanho e em qualidade, da obra de Camilo Castelo Branco. Tem-se falado na possível nomeação do filme para os Oscars deste ano. Seria o reconhecimento, ainda que póstumo, de uma carreira de realizador de cinema verdadeiramente excepcional. E seria para nós portugueses motivo de enorme orgulho.


Claro que tinha de pôr aqui um clip com a guitarra de Fontes Rocha, Mas a pesquisar a música do avô era impossível não encontrar a do neto. As variações de Fontes Rocha são, como tudo o que fazia, envolventes na sua inventividade e aspiração de voo e liberdade. Mas é impossível resistir ao curto clip de Ricardo Rocha: maravilhoso.