?

Log in

No account? Create an account

london calling
rosas
innersmile
Desde o fim de semana que Londres (e por arrastamento outras cidades inglesas) está, quase literalmente, a ferro e fogo. Apesar de os focos de violência estarem mais ou menos limitados a determinadas zonas, o mapa dos acontecimentos coloca problemas em áreas bastante disseminadas da cidade.

Por enquanto a confusão ainda é muita, e é interessante seguir os jornais ingleses (quer dizer, o Independent e o Guardian, que são os que eu leio) no que toca às causas deste surto de violência. Há os que vêem neste acontecimentos uma reedição das manifestações políticas dos anos 80, que tiveram o seu epicentro em Brixton, e há os que acham que se trata de puro vandalismo, de criminalidade dirigida às grandes lojas de produtos da moda (vestuário desportivo e electrónica, fundamentalmente). A este propósito o Guardian fala em ‘copycat violence’, ou seja, a contaminação da violência por efeito de imitação, o que é uma expressão feliz uma vez que aparentemente estas manifestações se convocam e espalham de modo viral, através de sms e das redes sociais.

O senso comum avisa que a verdade estará noutro lugar, ponto de cruzamento de múltiplos factores. E que estes acontecimentos resultam quase sempre de soluções muito complexas e extremamente frágeis que os sistemas institucionais criam para lidar com questões muito complicadas. A guetização das cidades, aliada às dificuldades económicas extremas, e à generalização da delinquência como forma de sobrevivência económica e social, criam verdadeiros barris de pólvora à espera de um pretexto para explodirem.

Mas a minha ideia quando comecei a escrever este texto era falar de um caso muito peculiar nesta onda de violência londrina. Creio que na noite de Domingo para Segunda-feira, um grupo de adolescentes quebrou a montra da Gay’s The Word, a mais antiga livraria gay e lésbica de Inglaterra, e da qual já tenho falado aqui muitas vezes. Ora, a GTW fica em Marchmont Street, ali perto de Russell Square e do tranquilo bairro de Bloomsbury, uma zona fora do mapa das explosões de violência. De resto soube da notícia através do site Band of Thebes (link), e pelos visto só a imprensa dirigida à comunidade gay e lésbica lhe deu eco (link). A única referência que encontrei no Guardian, foi num post do blog do Jonathan Ross (link).

Segundo estas notícias, algumas lojas da rua foram vandalizadas com ovos, mas só a montra da GTW foi partida, o que coloca questões importantes. Curiosamente, e apesar de o Jonathan Ross se referir ao acontecimento numa nota no final do seu texto, ela não deixa de suscitar alguns comentários bem interessantes por parte dos leitores (há um mundo de diferença entre o nível de comentários dos leitores do Guardian e, só para referir um exemplo equivalente, os do Público). O próprio JR, nos comentários, usa a expressão ‘noite de cristal’, chamando a atenção para o facto de apenas a montra da mais conhecida livraria gay e lésbica de Londres ter sido partida, numa tentativa de que este acontecimento não deixe de ser inscrito na história desta onda de violência.

E só para terminar num tom mais prosaico e completamente inadequado, referir que desde que começaram a chegar as notícias de Londres, o meu DJ mental não para de passar dois temas: Panic, dos The Smiths, e o London Calling, dos The Clash (link).