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a arte de viajar + como proust pode mudar a sua vida
rosas
innersmile


Aviei mais dois livros do Alain de Botton (na realidade, um deles ainda está a ser aviado): A Arte de Viajar e Como Proust Pode Mudar a Sua Vida. Quanto ao primeiro, pela primeira vez um livro do De Botton deu-me um bocadinho de seca, pelo menos nalgumas partes. O livro analisa algumas das questões relacionadas com as viagens: porque viajamos, o que é a beleza, como guardar lembranças das nossas viagens, etc. Cada capítulo refere-se a um determinado tema, e é escrito sob a égide de um ou vários lugares e de um ou vários escritores ou artistas plásticos. Como sempre o autor é muito certeiro a caracterizar os assuntos e os seus juízos têm sempre um certo humor distanciado. Estamos, de qualquer forma, muito longe dos travelogues ou da clássica literatura de viagens, não é esse o campo de especialização do Alain de Botton. Mas o livro é de certo modo indispensável para quem gosta de viajar (como viajante propriamente dito ou apenas como turista), precisamente porque analisa com acutilância o papel que as viagens têm nas nossas vidas e na nossa maneira de viver.

Como Proust Pode Mudar a Sua Vida é de facto um livro muito bem conseguido, e não admira que tenha sido tão popular e tenha tornado o Alain de Botton num autor de best-sellers. Em Busca do Tempo Perdido é, como se sabe, o livro de Marcel Proust de que toda agente fala como sendo uma das grandes obras-primas da literatura, mas que pouquíssima gente leu (eu incluído, e já fiz tentativas). O que De Botton faz é pegar no livro (ou antes, nos sete volumes da obra) e na própria biografia de Marcel, e extrai um livro sobre a maneira de viver e de lidar com alguns problemas da existência humana.

Com um sentido de humor notável e uma capacidade verdadeiramente cirúrgica de estripar a vida e a obra de Proust, o Alain de Botton ensina-nos a viver melhor, ou pelo menos a suportar com mais inteligência as angústias e os problemas da existência, muitas vezes chamando a atenção para aqueles aspectos que nos parecem mais complexos ou mesmo desinteressantes ou difíceis de suportar. Por vezes o livro aproxima-se perigosamente de um daqueles livros de auto-ajuda, mas o humor e a profundidade da análise mostra sempre que é de outra liga que se trata.

Curiosamente, na livraria onde o comprei, o livro não estava arrumado na estante de ‘filosofia’ junto às restantes obras do Alain de Botton, mas noutra estante distinta, dedicada à análise literária. Desta vez a habitual falta de atenção dos livreiros (que em nome de uma análise muito superficial cometem asneiras por vezes muitas divertidas na arrumação das obras) até resultou, pois o livro de facto consubstancia um estudo bastante intenso da obra literária de Proust. Ou seja, para além de ser muito divertido e instrutivo, o livro de De Botton tem ainda uma vantagem suplementar: está resolvida a questão da leitura de Em Busca do Tempo Perdido, e já posso dizer que li, ainda que por interposto De Botton, a Recherche!