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do amor + em tudo te vejo
rosas
innersmile
Terminou no Domingo mais uma edição do Festival das Artes, em Coimbra. Só o nome assusta um bocadinho, se bem que faça jus à função: juntar várias artes (musicais, performativas, plásticas, cinematográficas) sob a égide de um tema, com destaque para as encomendas do próprio festival. A edição anterior escapou-me inteiramente, mas nesta lá consegui aproveitar o último fim de semana e ver dois espectáculos teatrais.

No Sábado fui ao teatro da Cerca de São Bernardo assistir à produção da peça Do Amor, um texto da autoria do dramaturgo sueco Lars Norén, com encenação da Solveig Nordlund. Confesso que o que me levou ao teatro foi sobretudo a oportunidade de ver, mais uma vez, o trabalho do Manuel Wiborg, um actor que eu acho excepcional, e que mais uma vez o comprovou. Mas gostei bastante quer do texto quer do espectáculo. A peça consta de uma sucessão de diálogos, curtos e muito sincopados, que nos vão dando conta da deriva afectiva de dois casais. É muito impressiva a sensação que a peça transmite da escassez emocional que dita o colapso de muitas relações. Por outro lado, um texto tão esparso dá muito espaço à encenação e sobretudo ao trabalho dos actores. Todo o poder de tocar o espectador repousa no trabalho dos actores e da sua direcção, são eles que dão corpo e espessura ao drama, e, neste caso, conseguem-no de uma maneira excepcional, reforçada por um dispositivo cénico sugestivo mas reduzido, e uma quase ausência de adereços. Para além de Wibog, participaram ainda os actores Joana Brandão, Joana Barcia, Nuno Nunes e Paulo Guerreiro.

No Domingo assisti ao espectáculo de encerramento do Festival, ao fim da tarde, na sala do restaurante do Hotel Astória. O cenário revelou-se muito eficaz para ajudar a dar o tom de Em Tudo Te Vejo, um recital de poesia escolhida e interpretada pela actriz Natália Luísa, do Teatro Meridional. Os texto seleccionados tinham em comum o tema da paixão amorosa, e grande parte deles como referente o mito de Inês de Castro. Gostei bastante, apesar de ter achado que não foi muito clara a distinção entre os textos do guião e os poemas propriamente ditos. Eu, pelo menos, só quando, ao terceiro ou quarto texto, reconheci um poema é que consegui perceber qual o sentido do guião do espectáculo. Mas gostei, sobretudo porque foi uma função muito atmosférica, resultado da junção do espaço do hotel, com uma certa patine das coisas já ultrapassadas (‘cheiro a parenta defunta’, acho que foi assim que o Zé classificou uma das salas do hotel), com o dispositivo cénico utilizado e o próprio trabalho da actriz.

Duas notinhas a propósito dos poemas. A primeira é para destacar a qualidade que a poesia do Al Berto tem para ser dita. De todos os textos que a Natália Luísa disse, só o poema do Al Berto soava como se aquela fosse a única maneira de o dizer, e isso tem a ver, não com as opções da actriz, mas com a matéria do próprio poema, com essa vocação dos versos do Al Berto para serem ditos em voz alta.

A segunda nota vai para a emoção que foi ouvir um dos mais belíssimos poemas do Sebastião Alba, um poeta tão pouco conhecido. Chama-se Ninguém Meu Amor, e inclusivamente já o pus aqui numa entrada do innersmile (e também no blog À Sombra dos Palmares, neste link)
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