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super 8 5*
rosas
innersmile
Apesar de Spielberg ser apenas o produtor do filme, é impossível deixar de ver em Super 8, escrito e realizado pelo J. J. Abrams, uma referência a algumas das premissas essenciais do cinema de Spielberg, em particular de Close Encounters of The Third Kind e de ET. Quer nos filmes de Spielberg quer no de J. J. Abrams, os extra-terrestres servem sobretudo de caixa de ressonância que amplia o universo do subúrbio e do ambiente familiar da classe média, com as suas zonas de conforto e as suas ameaças. Mais do que citações, o filme de Abrams recria (e homenageia) o quadro emocional dos filmes que Spielberg realizou ali na passagem dos anos 70 para os 80. De resto, Abrams apressa-se a estabelecer a referência temporal do filme, que se situa, precisamente, ali a meio caminho entre os já referidos Close Encounters e ET.

Nada disto, como é evidente, apouca ou menoriza o filme de Abrams, que, comprova-se mais uma vez, é um mestre da narrativa, a revelar um domínio perfeito do tempo e do ritmo a contar uma história. Lost, lembramo-nos todos, não vivia de outra coisa, introduzindo gimmicks que permitiam, não fazer a história evoluir numa determinada direcção (supostamente o seu final revelador), mas simplesmente manter a série enquanto exercício de pura narrativa. Víamos Lost, não porque quiséssemos saber o fim da história, mas porque estávamos completamente viciados no ritmo da sua narrativa.

Super 8 é puro gozo, e de facto desde os anos 80 que não víamos um cinema (comercial, de grande público) que tivesse tanto gozo na construção da sua própria lógica. O exemplo, como não podia deixar de ser, é Spielberg. Se pensarmos no primeiro Indiana Jones, só porque é um exemplo tão clarinho que se explica a si próprio, facilmente nos lembramos que o principal gozo do filme provinha precisamente de como ele se encarava a si próprio como um puro exercício de diversão. É essa qualidade, um filme que se diverte e nessa precisa medida nos diverte a nós que o visionamos, tão rara na actualidade de um cinema que se preocupa mais com a sua estratégia do que com os seus espectadores, que faz as delícias de Super 8. Por mim, é um dos filmes do ano.
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o regresso
rosas
innersmile



«Regressei a Londres dos Barbados para descobrir que, entretanto, a cidade recusara obstinadamente qualquer mudança. Eu vira céus azuis e gigantescas anémonas do mar; dormira num bungalow de ráfia e comera saborosos pratos de peixe; nadara entre crias de tartarugas do mar e lera à sombra dos coqueiros. Mas a cidade natal por nada se deixava impressionar. Continuava a chover. O parque continuava ensopado e o céu, fúnebre. Quando estamos de bom humor e faz sol, torna-se tentador ligar o que acontece dentro e fora de nós, mas o aspecto que Londres mostrava quando regressei, era um testemunho da indiferença do mundo perante tudo o que pudesse passar-se na vida dos seus habitantes. Sentia-me desesperado por ter voltado para casa. Parecia-me que poucos lugares na terra poderiam ser piores que aquele onde estava destinado a passar a minha existência.»

- Alain de Botton, A ARTE DE VIAJAR (excerto)