July 22nd, 2011

rosas

vampiro

No final de 1977 vim viver para Coimbra, para o Bairro Norton de Matos. Vim contrariado. Depois de ter passado o ano lectivo anterior entre Trás-os-Montes e a Beira Alta, e um Verão na Amadora em que não conhecia ninguém, tinham começado as aulas no liceu da Amadora e eu tinha começado a fazer amigos e a ter vida social. Além de que o liceu da Amadora era uma animação, nomeadamente com a agitação política do período pós-revolucionário.

Detestei Coimbra. Não gostei do liceu, não gostei da casa para onde fui morar, não achei piada nenhuma à cidade. A primeira lembrança que tenho, e isto deve-se ter passado para aí nos princípios do mês de Novembro, foi de descer a São José para apanhar o trólei, o 5, sair na baixa, em frente à igreja de Santa Cruz (ainda havia trânsito na Ferreira Borges e na Visconde da Luz), e seguir a pé pela rua da Sofia até ao Arnado, para ir ter com os meus pais, e irmos almoçar, creio que ao refeitório da Liga dos Combatentes. Achei tudo decrépito. Hoje ainda é, talvez mais, mas agora sou fascinado pela rua da Sofia, que acho fabulosa.

Acho que já trazia desde a infância o gosto de ler, e sobretudo o dos livros. Em Mirandela fiz-me sócio de uma biblioteca e ia lá amiúde, só para trocar os livros, mesmo quando não os lia. Aliás em Coimbra também fui sócio da Biblioteca Municipal, quando funcionava no antigo refeitório de Santa Cruz. Um dos primeiros amigos que fiz no bairro, vizinho e colega de escola, também lia muito, e esse convívio foi determinante do desenvolvimento dessa cultura dos livros e da leitura.

Muito perto da minha casa, no Bairro, havia uma papelaria que também vendia jornais e tinha uma estante com livros. Era o Sabiá. Não sei se a variedade era muita, mas o que me lembro era da quantidade de livros das colecções Vampiro, policiais, e Argonauta, de ficção científica. Para além dos livros da biblioteca e dos que o meu amigo me emprestava, comecei, através de grandes esforços de engenharia financeira, a comprar no Sabiá livros policiais. Li, durante esses anos desde 1978 e até inícios dos anos 80, quando quando já andava na faculdade, literatura policial de forma quase compulsiva, quase exclusivamente através dos livros da colecção Vampiro.

Graças à Vampiro, e a essas horas de alienação pura, acho que me habituei à cidade e aos poucos fui gostando cada vez mais dela. Ainda tenho com Coimbra uma relação complicada, sou implacável a detectar os mínimos defeitos, por vezes com uma atenção e uma exigência um pouco exagerada. Acho que era perfeitamente capaz de me mudar para viver noutra cidade, e lembro-me de três ou quatro onde gostaria de experimentar viver. Mas confesso que a maior parte do tempo não me apetece viver em mais lado nenhum.