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a idade madura
rosas
innersmile
A idade madura é aquele período de tempo que vai desde que começamos a envelhecer até já sermos indiscutivelmente velhos. Muitas vezes esse período dura dois dias, e geralmente coincide com o fim de semana, aquele em que decidimos fazer uma farra para descobrirmos que já não temos idade para isso. No meu caso durou uma noite. Fui a um concerto rock, com um grupo de pessoas mais novas do que eu, e lembro-me de no princípio da noite ter pensado vagamente que se calhar estava a começar a ficar velho para aquelas coisas, e de ter chegado ao fim da noite absolutamente convicto de que estava definitivamente velho para aquelas coisas.

Mas normalmente dura mais tempo. Começa aí por volta dos quarenta e cinco anos, quando começamos a sentir os primeiros sinais de que o nosso corpo já não responde a esforços, nem recupera deles, com a ligeireza com que costumava acontecer. E acaba no dia em que deixamos de ter a lucidez para perceber que estamos de facto velhos. Este período, que sabemos quando começa mas não damos por que termine, é uma fase engraçada da vida.

Por um lado o corpo não pára de cair, primeiro devagar, quase imperceptivelmente, um movimento que deixamos de conseguir fazer, uma dor que persiste para além do meio-dia e meia hora. Quando damos por ela, temos uma dor diferente todos os dias. Hoje um joelho, amanhã uma clavícula, no dia seguinte um órgão interno daqueles que, se faltámos à aula certa de ciências, nunca chegámos a saber que tínhamos. Até à fase gloriosa, que é aquela em que nos dói tudo ao mesmo tempo. Hoje, por exemplo, dói-me o cotovelo direito e o ouvido esquerdo. Juro que nunca tive consciência de ter ouvidos, sempre pensei que as orelhas fossem uma partida da natureza, e que ouvir fosse uma coisa que acontecia apenas porque sim. É como respirar: só há pouco mais de um mês é que descobri que os pulmões servem para respirar e que quando eles estão congestionados deixamos de conseguir respirar, temos febre e devemos tomar uma dose de antibiótico, ao mesmo tempo que temos de tomar um protector gástrico por causa do estômago… outro órgão de cuja existência nunca ninguém me tinha falado.

A parte boa da idade madura é que ao mesmo tempo que o corpo se degrada, num movimento uniformemente acelerado, a nossa cabeça, quer dizer, a parte interior dela (a de fora, vê cada vez pior e cria pêlos em vários orifícios), parece funcionar cada vez melhor. Estamos mais despertos para tudo o que se passa no mundo à nossa volta e temos uma disponibilidade maior para perceber e aceitar todas as novidades. Somos mais profundos, mas também deslizamos melhor pela superfície das coisas. Ganhamos uma insuspeita capacidade de discernir entre o que é importante e aquilo que é tão insignificante que não merece um mínimo dispêndio de energia. Valorizamos os amigos, não porque a vida nos pareça impossível de suportar sem eles (como quando somos jovens), mas porque já sabemos que eles são o que há de melhor e mais divertido nela. Comemos para nos satisfazermos e não para nos saciarmos. Lemos melhor e mais depressa, e aprendemos que abandonar um livro aborrecido não é um pecado mas a possibilidade de um outro livro interessante. Descobrimos que há mais no cinema do que pipocas, efeitos especiais e receitas de bilheteira no fim de semana da estreia. Tiramos o som à televisão e ouvimos Miles e Mozart (só para não sair dos émes). Desligamos a televisão. Fazemos férias para desfrutar do descanso e não para coleccionar cidades e companhias ferroviárias. Percebemos, sem complexos de culpa, que passar uma tarde numa esplanada de uma cidade desconhecida a beber um café frappé é mais interessante do que subir a um vulcão.

Percebemos, enquanto o nosso corpo se degrada, que a solidão não tem de ser necessariamente um desespero, mas pode ser uma oportunidade de contemplar tranquilamente o mundo e a vida, a dos outros mas sobretudo a nossa. Esta parte boa da idade madura é também a mais irritante: é que enquanto contemplamos serenamente a vida tomamos consciência de que, pela primeira vez, conseguimos, já nem digo avistar, mas ao menos intuir que depois daquela curva lá ao fundo a estrada se acaba. A tarde começa a findar. A noite já não se demora.