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o mar Cáspio
rosas
innersmile
Acho que tenho exagerado com as citações e as fotos aqui no innersmile. Mas a verdade é que não tenho andado com muita inspiração para escrever coisas mais elaboradas. Na verdade até ando um bocado pasmado, e não é só aqui. Por outro lado, o facebook e agora o Google+ servem para entreter e ir pondo on-line uns clips e umas brincadeiras. Além disso, como diz um amigo meu, faço muitos textos sobre livros, o que deve ser uma seca para quem vem aqui, mas o ponto é que tirando a leitura, sobra muito pouco de interessante na minha vida. Férias, acho que é disso que estamos a precisar, eu e o innersmile.

Mas o que é que se há-de fazer?, a leitura redime-me da pasmaceira, do ‘modo funcionário de viver’, e, para além de me divertir, dá-me assim uma espécie de clarões. Voltamos ao mesmo, um tipo tem de ter uma vida um bocado parva para se entusiasmar com pedaços de prosa, quando há tanta vida lá fora, e ainda para mais agora há sol, há calor, há praias, esplanadas e rapazes giros.

Posto isto, estou a ler mais um livro do Alain de Botton (a escrita deste gajo anda mesmo a obcecar-me), A ARTE DE VIAJAR. Ainda é cedo para falar no livro, mas já quero transpor para aqui mais um trecho. É incrível como o Alain (já o trato assim, afinal de contas já vou no terceiro encontro, ou seja, já passámos a fase do jantar e a do primeiro beijo) consegue escrever coisas tão precisas sobre as nossas vidas, sobre a sociedade actual, sobre o mundo tal como ele é, chamando a nossa atenção para aspectos, ou mesmo pormenores, das nossas vidas que nos passam completamente ao lado. E tudo isto com uma linguagem aparentemente neutra, mas que é verdadeiramente excitante. Se não, vejamos:

«De um parque de estacionamento junto à 09L/27R, nome que os pilotos dão à Pista Norte, o 747 vê-se primeiro aparecer como uma pequena e cintilante luz branca, como uma estrela que caísse sobre a terra. Traz doze horas de voo. Partiu de Singapura de madrugada. Sobrevoou o golfo de Bengala, Delhi, o deserto afegão e o mar Cáspio. Descreveu um arco de voo sobre a Roménia, a República Checa e o Sul da Alemanha e começou a descer tão lentamente que poucos passageiros terão dado conta de uma mudança de tom no ruído dos motores, sobre as turbulentas águas de um castanho pardacento dos litorais holandeses. Seguiu o curso do Tamisa rumo a Londres, virou a norte nas imediações de Hammersmith, altura em que o trem de aterragem começou a entrar em acção, rodou sobre o seu eixo na direcção de Uxbridge e apontou a Slough. Vista de terra, a luz branca vai adquirindo pouco a pouco a forma de uma grande massa de dois pisos, com quatro motores pendentes como brincos de uma par de asas inverosimilmente compridas. Por entre a chuva ligeira, as nuvens de água compõem um véu por de trás do avião que avança compenetradamente sobre o campo de aterragem. Desdobram-se, cá em baixo, os subúrbios de Slough. São três da tarde. Nas moradias esparsas, começam a encher-se as chaleiras. Há uma televisão acesa numa sala, mas com o som desligado. Avançam das paredes silenciosas sombras verdes e vermelhas. O quotidiano. E sobre Slough, há um avião que há poucas horas ainda sobrevoava o mar Cáspio.»

Ainda por cima o Alain farta-se de falar de aeroportos e aviões, até agora todos os livros que li dele falam de aviões. Ou seja, não há mesmo maneira de eu não gostar muito dos seus livros.