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história do cerco de lisboa
rosas
innersmile


José Saramago é um dos meus autores. Não lhe li a obra toda, ao contrário do que acontece com outros escritores, mas sinto uma enorme afinidade com a sua prosa. É um daqueles autores em relação a quem tenho sempre a sensação de que escrevem para meu pessoal prazer e ilustração. Também gostar da pessoa do escritor, enfim, um gostar à distância, feito de admiração e não de afecto, gostar da pessoa do escritor, dizia, é uma coincidência, que, julgo eu, não acrescenta ou diminui relativamente ao meu gosto pelos seus livros. Além disto tudo, fascina-me o compromisso de Saramago com a escrita, que foi o aspecto que mais me marcou na exposição A Consistência dos Sonhos, que vi há uns anos no Palácio da Ajuda.

Apesar de tudo, não li muitos livros do Saramago. Da sua obra de não-ficção li os cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote e as Pequenas Memórias. Conheço pela rama a poesia, e desconheço em absoluto o teatro, os contos ou os volumes de crónicas. Quanto aos romances, li o Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, Ensaio Sobre a Lucidez e A Viagem do Elefante. Felizmente sobram muitos livros para ir alimentando a relação com a obra do escritor.

A esta lista acabo de acrescentar a História do Cerco de Lisboa. Trata-se de Saramago no seu melhor, o que todavia não é mesmo que dizer que se trata do melhor de Saramago. Esta História não tem, na minha opinião, o encantamento d’O Ano da Morte, o meu livro preferido do autor, ou a sabedoria e a universalidade do Ensaio Sobre a Cegueira, que é, ainda na minha humilde opinião, o seu melhor romance. Mas o rendilhado da narrativa, a presença omnisciente do narrador, a riqueza dos recursos, o constante envio para a oralidade do discurso, o sentido de humor, que não se esgota na ironia, mas nela encontra o seu ponto alto, o olhar terno sobre as personagens e até a presença dos cães, tudo isto nos propicia um encontro com o escritor em total domínio da sua arte.

Suponho que a história da História seja conhecida: um revisor altera uma palavra decisiva numa obra sobre a História do Cerco de Lisboa, e esse gesto tão breve leva-nos para dois caminhos narrativos: uma história de amor, eventualmente das mais bonitas que Saramago escreveu, e uma revisita a esse momento definidor da nossa história nacional que foi a conquista da cidade de Lisboa aos mouros. Claro que, como qualquer outra obra de Saramago, o livro é muito mais do que o romanesco, e é do olhar particular do escritor em relação à sociedade humana sua contemporânea (que apesar de tudo não era inteiramente coincidente com o olhar da pessoa do autor) que nasce a sua importância como romancista.

Mas confesso que aquilo que faz de Saramago um dos meus autores é o muito que os seus livros e a sua escrita me divertem.