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news of the world
rosas
innersmile
Um dos meus rituais londrinos preferidos, era o de comprar os jornais de Domingo.. ao Sábado à noite. Normalmente no regresso do jantar ou do teatro, nos vendedores de rua, mas muitas vezes sai de casa, por volta das onze da noite, para ir à estação de Euston comprar as edições de Domingo. Era o privilégio de ficar a desfolhar até às tantas da madrugada, e o prazer de já ter as notícias mais ou menos seleccionadas para as leituras dominicais.

E sempre dois jornais. Um jornal sério, a princípio o Sunday Times (a edição de Domingo do Times) o o Sunday Telegraph, depois quase sempre o The Independent on Sunday (o The Independent sempre foi, e ainda é, o meu jornal inglês preferido). E, é claro, para compensar, um tablóide, sempre o News of The World.

O NOTW é provavelmente o pior jornal do mundo, pelo menos é o mais infame. Trata-se da edição dominical do célebre The Sun, mas consegue ser ainda pior. No sensacionalismo, na reaccionarice (mesmo quando apioava os governos Labour), na coscuvilhice, mas sobretudo na agressividade com que perseguia as notícias, e sobretudo as vítimas delas. O melhor que pode acontecer a uma celebridade, é o NOTW publicar uma notícia inventada sobre ela. Porque o pior é os (soi disant) jornalistas do NOTW filarem os dentes em alguém e não largarem, movendo campanhas intrusivas, violentas, feitas tanto de mentiras como de verdadeiros assassinatos de carácter.

Algumas vezes as vítimas das notícias do NOTW tinham pés de barro ou parentes na lama. Podiam ser suspeitos de práticas de crime, ou de condutas menos apropriadas. Ficaram famosas as campanhas que o jornal desenvolveu contra a pedofilia, e contra pedófilos em particular. O problema é que muitas vezes estas pessoas eram meras suspeitas de prática de crimes, e se o jornal ajudou a descobrir verdadeiros criminosos, também não foram poucos os casos em que essas suspeitas se vieram a revelar infundadas. E outras vezes a investigação dos jornalistas prejudicou e comprometeu as investigações policiais.

Mas muitas vezes esses ataques e essas campanhas baseavam-se apenas em meros julgamentos morais, pessoas cujos comportamentos, ainda que não constituíssem crime ou sequer alvo de censura aos olhos da lei, pareciam conter um potencial de escândalo suficiente para atiçar a curiosidade ávida dos leitores. Valia tudo, desde os hábitos alcoólicos ou de consumo de drogas das estrelas pop, às noites selvagens dos jogadores de futebol, ou às preferências sexuais dos membros do parlamento.

Os métodos da chamada investigação dos tablóides, e do NOTW em particular, sempre estiveram em causa. Perseguições, vigilâncias, ameaças, subornos, chantagens, tudo servia para construir as notícias. E escutas. Por mais de uma vez o jornal esteve sob suspeita de promover escutas telefónicas, obviamente ilegais, às vítimas do seu jornalismo de investigação. Nos últimos dias rebentou mais um escândalo relacionado com escutas, e que metia os profissionais e os responsáveis do jornal, detectives particulares ao seu serviço, e pelos vistos até membros das forças policiais. Entre as vítimas das escutas, contam-se ex-soldados nas missões do Médio Oriente, familiares de soldados mortos no Afeganistão, uma rapariga assassinada cujo telemóvel foi completamente devassado pelo jornal, e familiares das vítimas do ataques terroristas de Julho de 2005 (cujo aniversário hoje se assinala, precisamente).

O escândalo subiu de tom, e o governo de Cameron foi obrigado a intervir. O NOTW está sob suspeita e desta vez as autoridades parecem mais firmes na avaliação das condutas criminosas feitas em nome do jornalismo. Rupert Murdoch, um dos homens mais poderosos da terra, dono, entre outras coisas, de um império mediático, que foi por onde começou a sua ascensão no mundo dos negócios, decidiu agir, e mandou anunciar que a edição do próximo Domingo será a última do NOTW. É um acontecimento sem par na história do jornalismo inglês. Não só porque o NOTW é um jornal centenário, como ainda porque são raros, na Grã-Bretanha, os casos de encerramento de jornais, nomeadamente por razões que não têm exclusivamente a ver com a sua viabilidade económica. É, definitivamente, o fim de uma era.