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innersmile
Dizem que nunca devemos regressar aos lugares onde fomos felizes. Não sei se isto é assim, mas seguramente devemos regressar aos lugares onde fomos infelizes. A vida, em princípio, dá-nos sempre uma segunda oportunidade de olhar para esses lugares com outros olhos. Ou talvez não.

Quando eu tinha 14 ou 15 anos (estamos a falar da segunda metade da década de setenta do século passado) fui exilado de Moçambique e do lar paterno para uma aldeia da Beira Alta, freguesia de Figueira Castelo Rodrigo, onde durante oito meses, um ano lectivo, vivi com uma parte da minha família que não conhecia, por quem não sentia afecto, que não me dizia nada. Fui muito infeliz durante esses oito meses. Miseravelmente infeliz.

Suponho que o mesmo, ou pior, tenha acontecido a muitos jovens caídos nas malhas rotas do fim do império. Nunca passei fome, como outros passaram, mas vivi meses numa arrecadação sem luz, ao lado da cozinha, longe do resto da família. Abria a mala onde tinha alguma da roupa que nunca tinha usado desde que tinha chegado de Moçambique, porque era de verão, e cheirava-a, para matar saudades da minha mãe. Quando fui, já perto do final desses oito meses, visitar os meus primos com quem tinha crescido e vivido durante toda a minha vida, e que tinham sido desterrados para outra cidade do norte de Portugal, senti uma inveja danada deles porque estavam juntos, tinham-se uns aos outros, divertiam-se e animavam-se mutuamente, enquanto eu me sentia um alien, alguém que tinha sido raptado e que tinha acabado de passar os últimos meses com uma tribo de extra-terrestres e que agora olhava para os seus antigos iguais com um misto de estranheza, desconforto, algum sentimento de culpa, e muita muita inveja.

Depois de sair dessa aldeia na Beira Alta voltei lá, sei lá, uma meia-dúzia de vezes, não muitas mais, e sempre para proporcionar ao meu pai um contacto com uma terra que lhe diz muito e com familiares muito próximos, alguns deles precisamente aqueles com quem vivi no ano lectivo de 1976-1977. A última vez que lá tinha ido, foi há doze anos, para um funeral. Nunca me apetece lá voltar, não tenho saudades, nunca me lembro daquilo.

E no entanto quando lá vou, como aconteceu neste fim de semana, gosto muito, gosto daquela paisagem lindíssima, que me faz sempre lembrar a história de Portugal. É curioso, mas ao atravessar de carro a estrada que vai para Almeida e depois para Figueira de Castelo Rodrigo, ao andar a passear a pé pelas ruas da aldeia, a ver as inúmeras casas de pedra em ruínas, as hortas, os pombais, é das ocasiões em que sinto uma ligação mais forte ao nosso passado histórico. Nunca me acontece em Coimbra, mas ao passear pelas ruas da aldeia tenho sempre a impressão de estar a repetir um mistério que muitas pessoas já fizeram antes de mim, e que há qualquer coisa que me liga a todas as pessoas que sucessivamente ao longo do tempo passaram pelos mesmos lugares.

Este domingo que lá passámos foi magnífico. O tempo estava estupendo, um céu azul intenso, a temperatura no ponto óptimo. A aldeia está bonita, os campos em redor verdíssimos, roseiras à porta das casas, fontanários e tanques de água por todo o lado. Daqui a dias já me esqueci como esta foi uma jornada luminosa e feliz e volto a sentir a mesma distância fria que sempre sinto em relação àquele lugar. Mas é possível, sim, voltar aos lugares onde fomos infelizes, e sentirmo-nos felizes só por lá estar.