July 3rd, 2011

rosas

o cãozinho

A mulher meio maluca segura o cãozinho. É um cãozinho minúsculo e velho. Muito velho. Magro e tremeliques. E cego. Quando anda no chão o cãozinho está sempre a chocar com as nossas pernas porque não vê por onde anda. Mas quase sempre está ao colo da mulher meio maluca. Parece uma extensão do próprio corpo da mulher, uma coisa que lhe está colada às mãos, uma protuberância do seu ventre, uma coisa de pelo ralo que se estende no seu colo, e que percebemos que está viva porque treme. Nos raros momentos em que não está ao colo da mulher, o cãozinho segue-a, dir-se-ia que cegamente em duplo sentido. Ou então dorme deitado no chão, com uma respiração tão convulsiva que cada espasmo parece o estertor derradeiro. A mulher, meio maluca, não pára de contar histórias do cãozinho, ou melhor histórias acerca da maneira como ela trata do cãozinho. Vai lá dentro e reaparece uns instantes depois a mostrar a escova de dentes e a pasta com que todas as noites lava os dentes do cãozinho. Todas as semanas a mulher faz uma viagem de dezenas de quilómetros para levar o cãozinho à clínica veterinária.

Ao lado da mulher há um homem calvo e lívido que não se percebe muito bem se ama a mulher através do cãozinho, ou se ama o cãozinho através da mulher. Há uma solidão estóica nesse homem. Todos os outros familiares da mulher meio maluca parecem desejar, com um alívio antecipado e uma ponta de indisfarçada crueldade, que o cãozinho morra. Fazem piadas acerca da morte do cãozinho e divertem-se inventariando maneiras possíveis de o matar. Prometem mandar embalsamar o cãozinho para a mulher poder continuar a levá-lo todas as semanas à clínica veterinária.

Há qualquer coisa de comovente na mulher meio maluca, no cãozinho e no homem calvo e lívido, uma espécie de desamparado conforto, uma bizarria maternal. Mas quando estamos perto dos três, tudo o que desejamos é poder afastarmo-nos rapidamente e para o mais distante possível. Como acordar, manhã cedo, de um pesadelo estranho e perturbador.