June 30th, 2011

rosas

borboletas nocturnas










«É difícil manter a morte presente na mente quando há trabalho que tem de ser feito: ela apresenta-se-nos mais como uma improbabilidade do que como um tabu. O trabalho, por via da sua natureza, não nos permite fazer mais que não seja tomá-lo demasiado a sério. Tem de destruir o nosso sentido de perspectiva e deviamos-lhe agradecer precisamente por essa razão, por permitir que nos envolvamos promiscuamente nos acontecimentos, por deixar que tenhamos pensamentos da nossa própria morte e da destruição dos nossos empreendimentos com uma ligeireza maravilhosa, como se fossem meras propostas intelectuais, enquanto viajamos para Paris para vender óleo para motores. Funcionamos na base de uma miopia necessária. É precisamente aí que reside a energia pura da existência; uma vontade cega que não será menos impressionante do que uma borboleta nocturna que atravessa arduamente o peitoril da janela, contornando um pedaço espesso de tinta deixado por um pincel demasiado apressado, recusando-se a contemplar o plano mais alargado no qual estará morta ao cair da noite.»

- Alain de Botton, ALEGRIAS E TRISTEZAS DO TRABALHO (Dom Quixote)