June 29th, 2011

rosas

angélico

Não é fácil encontrar uma perspectiva serena e estruturada sobre a morte prematura de um jovem cantor e actor que era um ídolo da cultura pop. Entre a catarse emocional dos fãs, o cinismo distanciado de quem acha que está longe do que é mundano, e a voragem desumanizante do circo mediático, sobra muito pouco espaço para tentarmos perceber como é que a morte de Angélico Vieira nos toca.

Há qualquer coisa de james dean nesta tragédia. A juventude dos protagonistas, que viviam o seu momento de eternidade, a sua beleza física, que inevitavelmente nos perturbava as emoções, a brutalidade do desfecho, tão inesperado como, visto agora em repeticão e em slow-motion, anunciado.

Há qualquer coisa de exemplar nestas mortes brutais. Elas dizem-nos, com estrondo, que a vida é assim: num momento tens tudo, és jovem e belo, a tua vida é uma corrida alucinante num carro de alta cilindrada madrugada fora, no instante seguinte rebenta-se um pneu e já não tens nada, nem sequer o frágil fio sinusoidal que te prende à vida.

O que fica, então, de tudo isso? O universo do show-bizz em que Angélico se movia, muito em torno de novelas televisivas, de concertos patrocinados e de aparições em eventos e em revistas, diz-me pouco, ou nada. Não me lembro de o ver nos Morangos Com Açucar (por minha exclusiva responsabilidade, acho que nunca olhei para essa novela com o mínimo de atenção necessário para fixar seja o que for), tenho uma ideia muito vaga das canções dos D’ZRT, e não fazia a mínima ideia de quem eram as suas namoradas.

Mas o Angélico entrou uma vez num filme que eu vi. O filme intitulava-se ‘20,13’, que é o verso do livro bíblico do Levítico onde se diz que os homens que se deitarem um com o outro como se deitariam com uma mulher, cometem uma grande abominação, e deverão ser mortos, sobre eles se derramando sangue. Esse filme foi realizado pelo Joaquim Leitão, e passava-se no norte de Moçambique, na véspera de Natal de 1969, em pleno teatro da guerra colonial. Apesar do seu papel relativamente secundário, a presença de Angélico era decisiva (e inesquecível), e marcava o filme como, entre outras coisas, um exercício sobre os perturbantes mecanismos do desejo.

A morte trágica do Angélico, como todas as outras, não faz sentido nenhum. E nada lhe poderá retirar o brutal choque da inutilidade. Mas em nome da vida devemo-nos lembrar de apertar sempre o cinto de segurança.