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alegrias e tristezas do trabalho
rosas
innersmile

Li há poucas semanas um livro de Alain De Botton, Uma Semana no Aeroporto, e decidi reincidir, desta vez com Alegrias e Tristezas do Trabalho, um exercício notável sobre a importância, e sobretudo o carácter, do trabalho no mundo actual, e o que é que o trabalho faz e diz de nós.

O livro é um pouco desequilibrado, o que me fez pensar que, eventualmente, os diversos capítulos não terão sido todos escritos com destino a uma obra única e coerente. Mas salvo isso, temos De Botton do melhor, na ironia, no humor, mas principalmente na acutilância das suas observações e na maneira extraordinária como dá forma a sentimentos, emoções ou simples impressões, coisas que sentimos mais do racionalizamos em relação ao nosso mundo e à nossa maneira de viver.

O livro segue dez situações, uma por capítulo, que são analisadas em grande detalhe, e que representam organizações ou sectores da economia que de alguma maneira epitomizam o papel do trabalho no mundo em que vivemos. E faz-nos de facto olhar com outra atenção para aquelas coisas do dia-a-dia, que passam completamente despercebidas porque as damos por tão adquiridas que nem reparamos nelas, mas que são como que o tecido de que são feitas as sociedades em que vivemos.

O Alain De Botton é uma espécie de filósofo que tenta recuperar para os nossos dias um papel que a filosofia tradicionalmente tem, e que é o de nos ajudar a compreender e a conhecer melhor a vida, e nessa medida, a vivê-la. A sua prosa é naturalmente amigável, o que não impede que, alguns momentos, possa ser um pouco paternalista ou mesmo condescendente. Por vezes a ironia escorrega-lhe para um certo snobismo, e trata determinadas personagens com uma superioridade quase gozona que é levemente irritante.

Talvez por isso, em Junho de 2009 a New York Times Book Review publicou uma crítica do livro, da autoria de Caleb Crain que punha esta característica em evidência e, a partir dela, tinha um apreciação francamente negativa acerca do livro (e que pode ser lida neste link). Não será, agora que li o livro, propriamente a mais equilibrada e a mais justa das críticas.

O Caleb Crain tem um blog, com o nome interessante de Steamboats are ruining everything (link). No dia 26 de Junho de 2009 publicou no blog um post muito curto com a notícia da crítica ao livro de Alain De Botton (link). Este reagiu mal à critica e pôs um comentário terrível no blog, em que depois de desancar no crítico acaba a dizer-lhe esta coisa completamente imatura: I will hate till the day I die! E ainda acrescenta que vai seguir a carreira do crítico com "schadenfreude", que, fui pesquisar, é o sentimento de contentamento que sentimos com as desgraças dos outros.

É fantástica esta coisa de estarmos a ler um autor que é um tipo inteligente, culto, com um olhar elevado em relação ao mundo, que de facto até acha que nos pode 'ensinar' uma ou outra coisa em relação às nossas próprias vidas, que de repente desata a portar-se como um puto mimado e mal-educado a quem contrariaram. No entanto devo dizer que pessoalmente esta atitude não beliscou a minha admiração pelo Alain De Botton. E até tornou a leitura do livro mais fascinante e principalmente mais divertida.