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o castor 4*
rosas
innersmile
Realmente não haveria fortes razões para ir ver um filme sobre um tipo que está deprimido e decide falar com o mundo através de um castor de fantoche que traz sempre enfiado no braço. Ainda para mais quando esse tipo é representado pelo Mel Gibson. A questão é o filme ser realizado, e interpretado, pela Jodie Foster. E o amor incondicional pela Jodie Foster é daqueles que nos leva a confiar nela em absoluto. Caramba, se o filme foi feito pela Jodie Foster é porque merece ser visto.

E ainda bem. Fica mais uma vez provado que o amor incondicional pela Jodie Foster compensa sempre. The Beaver é de facto a história de um tipo que sofre de uma depressão severa, que quase o faz perder a família e o emprego (o que é grave, porque ele é o dono do emprego), que um certo dia descobre que se enfiar um velho fantoche de castor no braço e assumir a ‘personalidade’ do castor, consegue ultrapassar e sublimar a sua depressão.

O tom é de uma comédia negríssima, e o notável é que, para um filme sobre um tipo que passa o tempo todo com um castor de peluche enfiado no braço, é de uma subtiliza verdadeiramente inacreditável. E o que é mais incrível é que muita dessa subtileza e da capacidade que o filme tem de nos fazer acreditar nele, tem a ver com o jogo irrepreensível do Mel Gibson.

Parte substancial do interesse do filme reside no exercício que constitui sobre a depressão, sobre os seus efeitos nos pacientes e naqueles que estão à sua volta, e principalmente sobre os mecanismos e os modos de lidar com ela. Mas é igualmente um filme sobre a família, em particular sobre essa relação de filigrana entre pais e filhos, cujo precário e complexo equilíbrio constitui sempre uma ameaça de explosão nuclear. Neste âmbito, curiosamente, o filme fez-me lembrar o recente filme de Terrence Mallick, The Tree of Life, pois ambos os filmes, embora com diversos retornos alegóricos, investem um olhar muito agudo sobre essa relação perturbadora entre os pais e os filhos.

O filme foi um flop monumental nos EUA, estreando num número muito limitado de salas, e depois de uma espera de mais de um ano, para tentar minimizar os possíveis efeitos negativos dos escândalos (álcool, abuso verbal, violência, racismo) em que Mel Gibson tem estado envolvido. Para além do efeito tóxico de Gibson nas bilheteiras, o próprio tom negro do filme, uma comédia muito dramática, terá igualmente contribuído para o efeito. Seria uma pena que isso contribuísse para o afastamento de Jodie Foster das câmaras de cinema, quer enquanto actriz, quer sobretudo da inteligência, da subtileza, e do poder visual da sua narrativa enquanto realizadora de filmes.
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executiva
rosas
innersmile
Não me comoveu a rábula do primeiro-ministro da troca do bilhete de classe executiva para económica no voo para a Bruxelas da cimeira europeia. Primeiro porque não é inédito. Lembro-me de um ministro de governo socialista que trocou o carro pelo comboio, coisa que durou, como é óbvio, para aí três dias. Vamos lá ver durante quanto mais tempo é que o primeiro-ministro abdica do conforto, e das condições de privacidade e trabalho, da classe executiva.

Depois, porque não é necessário. Se há coisa que não invejo a um primeiro-ministro é esse fraco consolo de poder viajar em executiva. Note-se que estamos a falar de voos intra-europeus, de duas, três ou quatro horas de duração, que são aproveitadas para trabalhar. A única vez que viajei em executiva (obrigado, overbooking), foi num voo Lisboa-Londres, e não estou a ver, malgré a Laura e a rua da Milharada, o primeiro-ministro a deliciar-se com a flute de champanhe. E quanto aos jornais do dia, suponho que à hora do voo, seja ela qual for, algum assessor já os leu todos e fez o resumo.

Mas eu até estava na disposição de aceitar com benevolência a decisão do primeiro-ministro, se não fossem umas declarações que ele prestou sobre o assunto, já em Bruxelas, e que eu vi num telejornal. Não as vi repetidas nos jornais on-line (é o estado de graça, sem dúvida), mas tanto quanto me lembro o primeiro-ministro, questionado sobre o assunto, começou por dizer que aquela decisão não era para se saber, que não tinha partido dele ou do seu gabinete a divulgação da notícia. Eu falo por mim: juro que também não fui eu, se dependesse de mim tinha ficado tudo em segredo. Não obstante não ser para se saber, e já que ali estava, o primeiro-ministro aproveitou para justificar a medida e as suas boas intenções.

Aqui é que porca (por assim dizer) torce o rabo. Se não era para se saber, se tudo deveria ter ficado na modesta descrição dos gabinetes, o primeiro-ministro poderia ter dito que o assunto não era relevante e passava à frente. Mas não. Não era para se saber, mas já que se sabe vamos lá puxar brilho à coisa. Ou seja, tratou-se mesmo de uma rábula para entreter o pagode. Que além de não ser inédita e necessária, ainda por cima não foi sincera e séria.
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