June 16th, 2011

rosas

o assédio


Retido no leito com febre e uma infecção pulmonar, aproveito para meter páginas na leitura do mais recente romance de Arturo Pérez-Reverte, O Assédio. Apesar de ser um tijolo com quase setecentas páginas, os três dias do fim de semana passado e estes de molho forçado têm dado andamento à leitura, apesar de ainda me faltarem pouco menos de duzentas páginas para terminar.

O Assédio é um grande livro, e não apenas no tamanho. Depois de escrever dezenas de romances de diversos géneros literários (policiais, históricos, de aventuras, de guerra, de marinhagem, etc) Pérez-Reverte decidiu reunir todos esses géneros, e mais alguns que porventura tenham ficado de fora, num único e magistral romance.

Como sempre, o que mais impressiona em Pérez-Reverte é o rigor da linguagem, o modo como esse rigor está no centro de operações do romance, como é ele que determina não apenas o tom mas o próprio sentido da narrativa. Ler este livro é puro deleite, trechos e trechos que apetece repetir apenas pelo prazer de ver como as palavras se encadeiam, como são ricas (e rigorosas, lá está), como são elas que dão conteúdo, espessura ao livro. Haveria inúmeros trechos que poderia citar aqui, mas fica este, como exemplo, e porque foi um dos últimos que sublinhei:

«O longo gurupés da balandra afasta-se lentamente de terra e do vento, enquanto as pessoas, empoleiradas lá em cima, soltam os tomadouros que prendiam a bujarrona e a giba. Instantes depois sobe a primeira vela triangular sobre a extremidade do gurupés, com as escotas soltas até que do convés as apanham e amarram. Como um cavalo puro-sangue preso pelas rédeas, a Culebra vira um pouco a sotavento, muito devagar, enquanto tensa a sua enxárcia, piafando impaciente, pronta para sair de bolina.
- Arriar escota da maior!... Larga!»


Claro que o livro é rico em peripécias e personagens. O contexto histórico é a cidade de Cádiz, durante o cerco (o assédio do título) que lhe foi feito pelas tropas napoleónicas. Um cerco sui generis, pois ao contrário do que é habitual, viviam melhor os sitiados do que os sitiantes, dado que a posição privilegiada da cidade permitiu-lhe manter sempre o porto aberto ao tráfego internacional.

A narrativa é construída à volta de vários personagens, cada um com a sua história, e que se vão cruzando, com maior ou menor frequência, à medida que os seus destinos necessariamente se cruzam numa situação de cerco como a que vivem. Cada uma das personagens marca a história que protagoniza: um plano que é um policial puro, outro que é um romance de espionagem, e por aí fora. Este naipe de personagens que vamos acompanhando é notável, dos melhores que Pérez-Reverte já criou, até pela sua multiplicidade. Não há apenas um, ou mesmo dois, ou três vá lá, personagens fortes, todos eles o são, desde o capitão corsário ao mais simples marnoto, do sinistro comissário de polícia à jovem patroa de uma empresa de armação de marinha mercante. Há até um oficial francês perito em balística, jovem professor de física, que apenas vê a guerra como uma sucessão de cálculos matemáticos sempre à procura da trajectória perfeita para as suas balas de canhão.