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xepangara
rosas
innersmile
Estive a ver há bocadinho no canal 2 da RTP o documentário Maior Que O Pensamento, que Joaquim Vieira realizou dedicado à biografia e à obra de José Afonso. Como não ligo nenhuma à televisão, tinha visto o primeiro episódio quando passou no canal 1 e esqueci-me dos dois restantes. Claro que apanhei hoje a repetição por mero acaso, mas foi óptimo porque passaram os três episódios de seguida.

É de facto um filme excepcional, e por diversas razões. Por ser compreensivo em relação à personalidade política e artística de José Afonso, pela detalhada atenção à biografia, pela qualidade dos depoimentos, e sobretudo pela riqueza dos documentos. Quer dizer, sobretudo sobretudo, é por nos devolver mais uma oportunidade de voltar a ouvir as canções do Zeca, aqui devidamente enquadradas histórica, politica e artisticamente.

Mas note-se que esta contextualização das canções não lhes acrescenta rigorosamente nada, elas não precisam de nada, de mais nada, para serem perfeitas. Pode-se aderir ou recusar as canções do Zeca, todas ou apenas algumas, por razões políticas ou mesmo afectivas. Mas o seu teor de pureza mantém-se absolutamente intocável. Essa pureza que faz com que se ouça sempre cada canção do Zeca como se fosse a primeira vez. Elas têm esse carácter primordial, próprio de uma voz que inaugura, que se faz ouvir (ia escrever ‘sentir’) pela primeira vez.

Ouvi no filme uma canção fabulosa, de que não me lembrava, Lá No Xepangara, um tema muito influenciado, como muitas canções de José Afonso, pelo seu contacto com a cultura e com a vivência moçambicana, nomeadamente com a realidade colonial. Faz parte do alinhamento do disco Coro dos Tribunais, de 1975, e esse tema, para além de ser, em si, lindíssimo, antecipa, em anos para não dizer em décadas, o cross-over da música popular ocidental em direcção à música de África. Ao ouvir este tema, lembrei-me do Graceland, do Paul Simon, e de como Lá No Xepangara tem a mesma vocação do disco de Simon, a de expandir os limites da canção popular ao mesmo tempo que procura raízes universais comuns.

Fiz este clip para Lá no Xepangara, porque não encontrei no YouTube nenhum clip desta canção cantada pelo Zeca. Utilizei fotos e clips já antigos, que fiz na Ilha da Inhaca, em Abril de 2007. Eu sei que, mais uma vez, as imagens não têm nada a ver com as palavras da canção, mas, como habitualmente, a ideia é precisamente essa.


vida prolongada
rosas
innersmile


«Um mundo sem livros seria um mundo órfão. Os livros ajudam a que morras de forma tranquila. Dão-te um olhar sereno e relativo sobre o mundo. Uma biblioteca é um projecto de vida. Dá-te consolo, esperança. É a possibilidade de nunca estares só. Escrever permite-me prolongar a minha vida: conhecer mais mulheres, eliminar outros inimigos. Sem escrever, tudo isso já teria terminado para mim.»

- Arturo Pérez-Reverte, em entrevista à edição de 27 de Maio de 2011 do suplemento Ípsilon, do jornal Público.