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ressaca
rosas
innersmile
Não posso garantir que nunca me tenha abstido em actos eleitorais anteriormente, mas com franqueza não me lembro. Se houve alguma eleição em que não votei, há-de ter sido porque não estava cá. De modo que as eleições de ontem foram, tanto quanto julgo, as primeiras eleições em que não votei, e de certeza as primeiras em que não o fiz de moto próprio.

Tive pouca disponibilidade para votar no Domingo, é verdade, mas isso apenas deu pretexto para um desinteresse feito de desânimo e falta de motivação. Claro que se estivesse muito decidido a ir votar, tinha conseguido. Assim, deu-me a preguiça, e o pouco tempo que tive disponível preferi dedicá-lo à leitura.

Mas estou um bocado arrependido. Acho que deveria ter ido votar no PS, e em José Sócrates em particular. Não posso afirmar que Sócrates foi o melhor primeiro-ministro que tivemos no regime democrático da Constituição de 1976. Acho que não temos distância histórica para o afirmar. Mas foi seguramente um dos lideres políticos mais preparados e com mais sentido das suas funções. O fogo à peça que tem sido a oposição política e jornalística a José Sócrates particularmente desde 2009, aliado a um excesso de confiança na maneira como lidou com a profunda crise financeira que fustiga a zona euro, com incidência particularmente devastadora nas economias frágeis e muito dependentes como a portuguesa, essas razões, creio eu, justificam o resultado eleitoral de ontem. Que vistas as coisas nem foi tão desastroso como isso. Mais coisa menos coisa, foi um resultado equivalente ao sofrido pelo PSD de Santana Lopes, num contexto económico e social muito mais favorável do que o actual, e ao fim de seis meses de governação, em vez dos seis ou sete anos de Sócrates.

Espero que as coisas corram bem a Passos Coelhos, porque se lhe correrem bem a ele, correm para o país. Mas estou muito descrente. Passos é impreparado, inconstante, errático e inconsistente. E espero que o ciclo político que ora se inicia, com uma maioria parlamentar de apoio ao governo e uma liderança nova no PS, possa permitir uma reflexão séria sobre o nosso sistema político, e sobre a responsabilidade dos partidos políticos, que ponha termo a uma maneira de fazer política desgastante, cara e contra´producente, que faz com que nos 35 anos da Constituição de 76 tenham havido 13 eleições legislativas, quando deveriam ter havido menos de 9.
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laurie anderson
rosas
innersmile
Há muito tempo que eu gostava de assistir a um concerto da Laurie Anderson. Sou fã dela há muitos anos, desde os tempos de Big Science e de Home of The Brave, mas nunca tinha calhado. Finalmente, ontem à noite, na Casa da Música, uma apresentação do projecto Delusion, em que a LA tocou violino e electrónica e contou histórias, pelo meio de projecções e manipulações de imagem.

Somos sempre estimulados pela inteligência acutilante da Laurie Anderson, e pelo modo como ela reflecte as perplexidades do homem contemporâneo, dividido (ou seria mais correcto ‘formado, ou formatado) entre as culturas do divino e da tecnologia. O homem contra as estrelas, como de resto era o tema de um dos momentos da noite.

Mas o que mais seduz na Laurie Anderson é a palavra e o uso que ela lhe dá, através da voz. Deixamo-nos encantar, mais até do que pelo conteúdo da narrativa, pelas modulações da voz, pelos caminhos por onde ela nos conduz, pela maneira como as palavras são pronunciadas. Pelo som das palavras e das frases. O verdadeiro sentido das palavras, o seu sentido imanente, o seu significado se quisermos, está não na codificação, no símbolo, mas sobretudo no som, no modo como ela é pronunciada e no efeito que a palavra dita gera no seu ouvinte. Laurie Anderson é uma contadora de histórias, como Esopo, os irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen. Ou como Sherazade (olá Zé).



Antes do concerto, dei um passeio pelo Porto. O carro ficou junto aos Clérigos, e descemos até à Ribeira, onde jantámos. Soube bem esta passeio a pé, até porque estava fresquinho e havia muita gente na rua. Claro que para cima vim de táxi, não me apetecia nada morrer apopléctico antes de ver a Laurie Anderson ao vivo. O passeio foi bonito, mas impressionou-me a extrema degradação de tudo por onde passámos. Até porque as últimas vezes que por lá tinha passado, e já foi há uns anos bem contados, tinha sido de noite, e à noite todas as ruas são gatos. Prédios lindíssimos, muito sujos e estragados, quando não mesmo abandonados e em ruína. Ruas sujas, atravancadas de buracos, lixo e taipais mal-amanhados. Tudo com ar degradado, do que está provisioriamente à espera do fim. Apesar disso, como disse, é um passeio bonito. A cidade tem uma beleza inscrita nos muros, ou sonhada nos horizontes, que resiste à extrema inabilidade dos homens em saberem lidar com o tempo.