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i am a camera
rosas
innersmile
Já aqui tenho posto os parágrafos de abertura de alguns livros. Há um certo fascínio por primeiros parágrafos, que tem a ver com mais do que a simples capacidade de enunciação. Tem a ver com fascínio e sedução. Podemos ser arrebatados para um livro pelo seu primeiro parágrafo. Através dele podemos nos apaixonar por um livro. Um dos primeiros primeiros parágrafos que me seduziu foi o d'Os Maias, andava eu no (antigo) sétimo ano do liceu. Outro primeiro parágrafo absolutamente mítico é o do livro Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Este livro do Italo Calvino, de resto, é sobretudo sobre um primeiro parágrafo.

Mas hoje vou reproduzir aqui um segundo parágrafo. É assim:

«Sou uma máquina fotográfica com o obturador aberto, totalmente passiva, que regista e não pensa. Registo o homem a fazer a barba na janela em frente e a mulher de quimono a lavar a cabeça. Um dia destes, tudo isto terá de ser desenvolvido, cuidadosamente revelado, fixado.»

Para além do enunciado, que nos seduz enquanto tal,atraindo-nos para a narrativa, mas também pela força da própria ideia que contém, este segundo parágrafo é famoso. O livro a que pertence é do Christopher Isherwood, e foi publicado pela primeira vez no final da década de trinta, aquela em cujo início a acção de passa. Trata-se de Adeus a Berlim, no original Goodbye to Berlin. No início dos anos 50 foi adaptado a uma peça da Broadway, intitulada, lá está, I Am A Camera ("I am a camera with its shutter open, quite passive, recording, not thinking.", é o texto do original inglês da frase).

Dessa peça foi feito um filme, ainda nos anos cinquenta, e, 1966, um espectáculo musical. Deste musical foi igualmente feita uma adaptação para cinema, em 1972, que se tornou um êxito imenso, e que de resto granjeou fama internacional ao autor do livro original. Falo, é claro, de Cabaret, o musical realizado pelo Bob Fosse, com a Liza Minnelli no papel de Sally Bowles e a prestação impressionante do Joel Grey como MC.

No seguimento do enorme êxito do filme (a Liza ganhou o Oscar com o seu papel nesse filme), Isherwood ficou desagradado com a progressiva ‘des-gayização’ deste processo, ao ponto de no filme de Fosse o próprio Isherwood e o facto de ser homossexual (tão essencial à sua relação com a Berlim de entre guerras) terem praticamente desaparecido. Escreveu então Christopher and His Kind, um relato ainda auto-biográfico, e ainda mais pessoal, da sua passagem por Berlim. Deste filme, foi recentemente feito um filme, com produção da BBC, de que já falei aqui (link).



(Foto da net)