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campismo selvagem
rosas
innersmile
Confesso que não nutro grande simpatia por este novo tipo de campismo libertário que nas últimas semanas tem assentado arraiais nas principais praças de muitas cidades. Até em Coimbra já há, ou houve, um acampamento, ali na praça 8 de Março, entre a Câmara e a Igreja de Santa Cruz.

Desde logo por razões políticas. Não conheço aprofundadamente os fundamentos políticos dos acampamentos, não li um manifesto, um programa, um ideário. Não sei se existem, mas se existirem eu não conheço. Mas pelo que tenho lido nos jornais e pelas declarações de alguns responsáveis ou participantes, acho tudo muito vago, seja aqui em Coimbra ou na praça da Catalunha, em Barcelona. ‘Uma nova maneira de fazer política’ ou ‘uma verdadeira democracia’ são soundbytes que não me dizem nada. É como a manifestação de Março, em Lisboa, a do facebook, acho que são manifestações políticas inconsistentes e superficiais. Meros pretextos para lidar com um mal-estar que não conhece formas positivas (ou seja, geradoras de coisas novas, de mudanças, transformadoras) de ser expresso e canalizado.

Outra razão de fundo é cívica. Das inúmeras formas de expressar ideias políticas não percebo como é que a apropriação do espaço comum e colectivo pode ser sustentada. Está certo que o chão das praças também é dos campistas. Mas a partir do momento que o é, deixa de ser de todas as pessoas que queiram desfrutar dele e que não o podem fazer a não ser nos estritos termos em que determinem aqueles que deles se apropriaram. Não me parece que isto faça sentido, e que por isso seja defensável. Como é que se reivindica uma verdadeira democracia se a forma de luta que se adopta é totalitária?

Só para contrapor um exemplo, que aqui há umas semanas passou quase despercebido e que andou pelos jornais. Uma antiga escola do Porto, creio que numa zona degradada (Fontinha), que estava abandonada há anos, e que servia de refúgio a meliantes e toxico-dependentes, foi ocupada por um grupo de cidadãos. Arranjaram a escola, recuperaram-na, pintaram-na, e aí instalaram grupos e actividades para entreter a miudagem e os velhos da zona. Quanto mais não fosse, pelo menos havia um local onde os miúdos podiam ir jogar à bola seguros e à vontade. A Câmara do Porto, surpreendida com esta ocupação, reagiu à bruta e, em vez de tentar recuperar uma boa ideia, despejou os ocupantes e (acho eu) emparedou os acessos à escola para cortar veleidades.

Percebe-se o contraste entre os dois casos? Num, o da escola do Porto, um grupo de cidadãos ocupa um espaço que estava abandonado e degradado para aí tentarem desenvolver um projecto local, pequeno, dirigido, voltado para uma comunidade concreta e que pode criar bem público. No outro, o dos acampamentos, um grupo de cidadãos ocupa um espaço de fruição colectiva para aí instalar um protesto vago, abstracto, inconsequente e estéril, que não só não produz bem comum como possivelmente degrada o existente, e vai seguramente custar dinheiro dos contribuintes, mais não seja em limpezas.

Já agora, o projecto ES.COL.A da Fontinha tem um blog para quem esteja interessado em acompanhar as vicissitudes desta aventura (link)
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