May 29th, 2011

rosas

the tree of life 5*

Algumas pistas para ver The Tree of Life, de Terrence Malick

A maneira como o filme radicalmente se afasta de uma narrativa convencional, cronológica, recusando a noção de ‘estória’. Não há um esboço de plot, de argumento, de storyboard. A narrativa, o poder de contar, radica nas imagens e na montagem. O filme lê-se quase como um poema, como um conjunto de versos. Um poema que em certas sequências parece aspirar ao arco grandioso de um épico, mas noutras é breve e raro como um haiku.

A riqueza narrativa do filme pode encontrar-se na profusa utilização de figuras de estilo, e na maneira como verdadeiramente as estraçalha, as leva ao limite. Aliás, no limite o filme é uma enorme e prolongada elipse, sendo esta, nas narrativas cinematográficas mais comuns, a forma preferida de fazer a acção progredir. Como se a elipse deixasse de ser uma técnica narrativa para passar a ser o próprio objecto do cinema.

Se numa leitura o filme parece querer fazer o confronto entre o natural e o divino, tocou-me mais uma certa perplexidade inquisidora com que o filme olha a família, e sobretudo o seu lugar no sonho americano. A infância, ou melhor a passagem da infância para a adolescência como um inevitável processo de perda (talvez melhor: ‘em perda’) e de sofrimento. Não é em vão que o filme abre com a notícia da morte de um filho e irmão, e não há quase segmento do filme que não no-lo recorde.

A beleza intensa, e nalgumas sequências mesmo extasiante, das imagens.


Para além do site oficial do filme, vale a pena espreitar e explorar o site The Tree fo Life / Two Ways Through Life
rosas

makes me wanna holler

Há muito tempo que o nome do Gil Scott-Heron me era familiar, apesar de apenas conhecer dele coisas muito dispersas. Apenas há poucos meses ouvi de maneira mais consistente a sua música, e ainda assim de modo um pouco indirecto, através de We’re Here Now, o álbum que o James XX, dos The XX, fez com remisturas do último disco de Gil Scott-Heron, I’m Here Now. Muitas das minhas horas de leitura, e de sofá-surfing, nos últimos tempos têm sido a ouvir este disco excitante e hipnótico (normalmente em conjunto, em modo aleatório, com o disco do James Blake).

Por isso, agora que nos chega a notícia do seu falecimento, decido invocá-lo com uma das faixas do disco produzido pelo Jamie XX, NY is Killing Me. Mas ao procurar música do GS-H no YouTube descobri uma gravação que ele fez de Inner City Blues (Makes Me Wanna Holler), creio que em 1981. Inner City Blues é uma canção do Marvin Gaye, do álbum What’s Going On, um monumento musical de cuja edição original se assinala este ano o 40º aniversário. Julgo que é muito significativo que Gil Scott-Heron, que chegou à música através do poder da palavra, tenha escolhido gravar esta canção do Marvin Gaye. Por isso, como dupla homenagem à memória de Gil Scott-Heron, e ao disco fabuloso do génio Marvin Gaye, aí ficam os dois clips.