May 28th, 2011

rosas

literatura de aeroporto


Numa blurb na contracapa do livro Uma Semana no Aeroporto (com o subtítulo Um diário de Heathrow), a escritora Jan Morris escreve o seguinte: “Duvido que Alain de Botton tenha alguma vez escrito uma frase desinteressante”. É rigorosamente isso: Uma Semana no Aeroporto não tem uma única frase que não seja interessante, bem escrita e divertida.

Há algum tempo que andava com vontade de experimentar este autor, e o tema deste livro, aeroportos, convenceu-me. Eu gosto muito de aeroportos, são lugares onde nunca apanho seca, mesmo que tenha de fazer longas esperas, como já me aconteceu algumas vezes, nomeadamente sozinho. Mas não me aborreço. Há sempre muitas coisas a acontecer que nos podem distrair e ilustrar, e podemos sempre remetermo-nos para uma das três actividades a que os aeroportos são propícios: ler (de preferência revistas que compramos naquelas lojas que têm sempre a nossa revista favorita e que nunca encontramos à venda na nossa terra), escrever (de preferência num dos cafés do aeroporto, a beber um latte muito açucarado), ou dormir. Mesmo que alguns aeroportos tenham uma politica de mobiliário que recorra a cadeiras onde não é fácil estendermos o corpo, dormir num aeroporto, quando estamos exaustos e há muita confusão à nossa volta, é sempre um prazer único.

Alain de Botton ganhou o privilégio de dormir durante uma semana num hotel Sofitel em Heathrow, e passar o tempo a escrever em pleno Terminal 5 do aeroporto londrino. A escrita de De Botton (a propósito, o seu apelido é de origem ibérica, o escritor é descendente de judeus sefarditas) é carregada de sentido e de humor, uma ironia subtil que, juntamente com um implacável poder de analisar as pessoas e detectar-lhes as fragilidades, pode por vezes descair para uma certa condescendência ligeiramente irritante. De Botton é aquele tipo de snob que nunca questionou essa sua característica, e por isso não tem consciência de como ela pode ser desagradável e até um pouco malévola. Como é óbvio, esta candura salva-o de ser um escritor insuportável, como são a maior parte dos escritores que têm consciência desse snobismo e acham que é ele, precisamente, que lhes vai abrir as portas do céu.

O livro, por ser breve, mas também por ser muito bem escrito, divertido, e muito interessante, lê-se num ápice. Como já disse, é irresistível a capacidade do autor de ler as personagens (que são, não nos distraiamos, pessoas reais, passageiros ou trabalhadores do aeroporto), e de as colocar num contexto de contemporaneidade, de, digamos assim, lhes perceber a alma e lhes traçar um destino (ainda que inventado) que faz todo o sentido no mundo actual (por actual entenda-se o de hoje de manhã, do noticiário das oito).

Fiquei cheio de vontade de ler mais livro de Alain de Botton, ainda que não tenha a certeza de ter sempre paciência para a sua petulância helvético-britânica. Quanto a este livro, De Botton dá de facto um novo sentido à famosa expressão 'literatura de aeroporto'.