May 21st, 2011

rosas

o emblema



Num livro de ficção que estou a ler um homem, um velho psiquiatra, entra numa mercearia no gueto de Varsóvia, num dia de Inverno em Fevereiro de 1941, para ir buscar uma encomenda: um documento falsificado que lhe permita sair clandestinamente do gueto durante algumas horas. Entregam-lhe um documento dactilografado em papel de carta nazi com o emblema no cimo da folha: “uma águia empoleirada numa coroa com a suástica ao centro”.

Lembrei-me de ter visto este emblema, num carimbo numa carta escrita em letra gótica. Foi em Berggasse 19, no Museu Freud, em Viena. Não me recordo do conteúdo exacto da carta, mas fazia parte do cerco insidioso que os nazis, após o 'Anchluss', moveram a Sigmund Freud para o forçar a abandonar a Áustria. Em 1938 o pai da psicanálise era uma estrela mundial, e por isso os nazis não se podiam dar ao luxo de pura e simplesmente eliminá-lo, pelo que pretendiam forçá-lo a sair, o que de facto veio a acontecer ainda nesse mesmo ano.

Acho que essa carta, ou o seu fac-simile, com a infame inscrição 'heil Hitler', foi o único documento que eu alguma vez vi proveniente dos nazis. Foi a única prova material que eu vi de que o nazismo efectivamente existiu, de que não foi um mero pesadelo, uma pérfida invenção literária, um conto de horror. E lá está, para que não esqueçamos, o emblema: uma águia empoleirada numa coroa com a suástica ao centro.