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moçambique 1974
rosas
innersmile

O título do livro explica-se: Moçambique 1974 - O Fim do Império e o Nascimento da Nação. O seu autor, Fernando Amado Couto, tanto quanto percebi, é oriundo da Beira, empresário, e foi jornalista. O livro ensaia um puzzle da complexidade de relações políticas que se foi tecendo em Moçambique nos anos derradeiros do império colonial, faz o ponto da situação na altura da revolução do 25 de Abril, e retrata o que foi a vida politica em Moçambique entre a revolução de Abril e a tomada de posse do governo provisório no seguimento dos acordos de Lusaka, em Setembro.

A oportunidade de analisar e ensaiar sínteses do que foi um processo muito complexo e difícil é, sem dúvida, a principal mais-valia da obra. Para quem tem desse tempo uma memória demasiado vaga, o livro ajuda a estabelecer contornos e a definir perfis. Fica-se, da sua leitura, com uma ideia bastante razoável do que foi um dos momentos mais dramáticos e determinantes da história de Portugal (de toda ela, e não apenas da mais recente), salientando o privilégio que foi, para as pessoas de minha geração e das gerações anteriores, assistir e ser protagonista desse momento. Para além do texto, de perto de quatrocentas páginas, o livro apresenta ainda uma bibliografia muito interessante, e um índice onomástico.

Não precisamos de exigir deste tipo de obras, para mais escritas por quem foi testemunha directa, e participante, dos acontecimentos, grande esforço de objectividade e imparcialidade. A visão do autor é, dir-se-ia necessariamente, tendenciosa, no sentido em que faz uma leitura dos acontecimentos e suporta uma determinada perspectiva (e é importante salientar que a generalidade das análises feitas são suportadas documentalmente). Como disse, tal não me parece grave. Antes pelo contrário, constitui um estímulo à procura de outras perspectivas sobre o tema da descolonização em Moçambique.

Para além de achar que o livro poderia ser mais completo e abordar, ou fazê-lo de forma mais profunda, outros aspectos, o único defeito que aponto à obra é uma certa desorganização do seu texto. Há repetições, há saltos, há interrupções e falhas. Dá ideia, mas poderei estar enganado, de que o texto final resultou da compilação de textos vários, e dispersos, e que falta ao livro, em termos de texto final, um eixo que faça a obra progredir de forma mais coerente e organizada.

Mas nada disto belisca o interesse do livro. De pouco adiantará, como disse, acusá-lo de, em alguns momentos, ser parcial e interpretativo. É um contributo importante para uma história em que muito, e muito do essencial, ainda estará por escrever.