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uma rainha na república
rosas
innersmile
A rainha dos ingleses está de visita à República. A última vez que um monarca inglês pôs pé em Dublin, foi há cem anos, ainda a Irlanda fazia parte integrante do império.

Eu gosto muito de Inglaterra e de todas as coisas inglesas. E apesar de em princípio não nutrir grande simpatia e confiança pelos nacionalismos, tenho uma paixão especial pelo nacionalismo irlandês. Por isso comove-me o convite conciliatório que a presidente Mary McAleese fez à rainha de Inglaterra, mas também me comove o grito daqueles que foram, junto à simbólica estação de correios de O’Connell Street, apupar a monarca que ainda usurpa seis dos condados irlandeses. Tal como me comove a capa de um jornal irlandês que vi de fugida numa reportagem da televisão, que tem a toda a capa uma foto da rainha e a tradicional frase de boas vindas Céad Mille Fáilte. E comove-me que Isabel II, sem dúvida a mais impressionante monarca do meu tempo, tenha escolhido vestir a cor verde para desembarcar na ilha esmeralda. E que tenha baixado a cabeça em sinal de respeito pelos mortos do nacionalismo independentista irlandês.

São inúmeros os pontos de contacto e os laços que unem irlandeses e ingleses, e que ultrapassam muito o factor histórico. Qualquer pessoa que esteja minimamente familiarizada com o Reino Unido e com a Irlanda, sabe que há uma espécie de comunicação constante entre os dois países. São aos milhões os cidadãos de ambos os países que mantêm relações mútuas entre eles: pessoais, familiares, culturais, económicas, de emigração, literárias, etc.

Fico contente com este gesto simbólico que visa aproximar politica e diplomaticamente dois países que, de facto, e por força dos seus cidadãos, estão condenados a viver juntos e amistosamente. Espero que esta visita de Isabel II, para além de desanuviar um clima de crispação e desconfiança (republicanos, como Gerry Adams, qualificaram esta visita de prematura), crie possibilidades de um entendimento futuro que vise restaurar a integridade da república. Ando (já aqui o escrevi) com muitas saudades de ir a Londres. Morro de saudades da Irlanda, onde fiz, por duas vezes, das melhores viagens de férias da minha vida. O que eu gostava de poder estar presente nestes quatro dias em que a Inglaterra está de visita à Irlanda.

Só uma nota final, que realça o significado profundo desta visita. O avião que transportou Isabel II de Inglaterra para a Irlanda aterrou no aérodromo militar Casement, cujo nome homenageia um dos heróis do nacionalismo irlandês, e um dos meus heróis pessoais, Roger Casement. Já aqui escrevi várias vezes sobre Casement, a última das quais a propósito da publicação do livro O Sonho do Celta, do prémio Nobel Mário Vargas Llosa. Resumindo, Roger Casement foi um alto funcionário da coroa que recebeu um título nobiliárquico pelas denúncias que fez das condições esclavagistas a que eram sujeitos os trabalhadores nativos das grandes companhias europeias exploradoras da borracha, no Congo e no Perú. Envolvido na causa independentista irlandesa, foi preso pelas tropas inglesas quando desembarcava de um submarino alemão, junto à costa da Irlanda, por ocasião da revolta da Páscoa de 1916. Condenado por traição, Roger Casement foi enforcado numa prisão londrina, depois de ter falhado um pedido de clemência. Era rei de Inglaterra Jorge V, que tinha sido precisamente o último monarca inglês a visitar a Irlanda, e foi avô de Isabel II.