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pina 5*
rosas
innersmile
Normalmente quando estou vários dias sem escrever nada aqui, é porque estou de férias e longe do computador, ou de um computador público. Mas estes quase oito dias que levo sem escrever nada, não significam que estive de férias. Mais prosaicamente, significa muita preguiça e muita falta de inspiração. Tenho saudades de escrever, de me apetecer escrever, de escrever textos enormes acerca de coisas sem interesse nenhum, de escrever contos ou poemas.

Para quebrar o jejum, vale a pena escrever sobre Pina, o filme que o Wim Wenders fez para celebrar Pina Bausch, juntamente com os bailarinos e os colaboradores mais próximos da coreógrafa alemã. Nunca vi ao vivo nenhum trabalho de Pina Bausch (e não foi por falta de tentativas, asseguro) e por isso é difícil perceber e destrinçar se o que neste filme me impressionou mais é de Pina ou é de Wenders.

O filme tem uma estrutura muito simples: quatro coreografias, entre as mais celebrizadas, de Pina Bausch, remontadas em estúdio (em palco?), mas também transportadas para fora do estúdio, inseridas em sets urbanos ou campestres, em Wuppertal e nos seus arredores, a cidade alemã onde Pina Bausch residia e tinha sediada a sua companhia. Os trechos dos bailados apresentados são normalmente enquadrados por breves testemunhos dos bailarinos que os protagonizaram, que falam em voz off sobre uma imagem deles próprios, acerca da experiência de trabalhar com a coreógrafa. A completar, raras imagens de footage de Pina Bausch em ensaio, e duas sequências de Pina a dançar: em Café Muller, contrapondo a dança de Pina com a da bailarina que recriou o papel, e uma sequência final em que Pina dança um fado.

Wim Wenders utiliza a tecnologia 3D para filmar dança como, julgo eu, nunca tinha sido filmada. Mais do que aspectos particulares do vocabulário coreográfico ou da performance dos bailarinos (aquilo que normalmente está em causa quando se filma dança), Wenders investe naquilo que me parece essencial no trabalho de Pina Bausch, que é a forma como o corpo em movimento, e a música que o desencadeia, ocupam um espaço. Parece ser sempre isto o que verdadeiramente interessa ao realizador, quer na recriação das coreografias quer na sua transposição para os espaços públicos. Talvez por ser aí que se pode encontrar com mais nitidez a vocação de cinema de uma dança que respirava teatro.

Como comecei por dizer, é difícil dizer o que neste filme, e sobretudo na sua eficácia, pertence mais a Pina ou a Wenders. E concerteza esse é um exercício inútil. Provavelmente Wenders conseguiu captar, numa demonstração que a vocação artística do cinema nunca descura a sua disciplina técnica (como na dança), o fôlego essencial da dança de Pina Bausch. O de que a beleza e a alegria residem no mesmo gesto, no mesmo passo, do desamparo e da solidão.
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porrada no passos
rosas
innersmile
As eleições legislativas do próximo dia 5 de Junho não me estão a entusiasmar nada. Não me apetece nada votar no Sócrates, porque é mentiroso e também, vá lá, porque me reduziu o salário em nome de nada. Mas também não me apetece ir votar em mais ninguém, porque votar noutro partido qualquer (ou em branco) é votar contra o Sócrates, e para falar com franqueza não confio em ninguém para primeiro-ministro, mais do que confio no Sócrates, por muito pouco que confie nele. Aliás, acho que estas eleições são completamente injustificadas, e o partido que as provocou devia pagar um preço por isso. Injustificadas e inúteis, porque os partidos foram e são incapazes de aproveitar a crise política para criarem melhores soluções políticas de futuro. Ou seja, não adianta ir votar, porque o que vai sair das eleições vai ser igual ao que era antes.

Por tudo isto, ando aqui a fazer tirocínio para me abster. Eu sei que votar é um dever e tal, mas mesmo assim. Não me apetece. Estou desinteressado do futuro do meu país? Sim, um pouco. Ou melhor, não tanto desinteressado como desiludido e descrente. E depois, o facto de ter um jantar em Lisboa na véspera das eleições, e bilhetes para um concerto no Porto na noite das eleições, não me vai dar grande tempo para ir votar. Mas logo se vê.

Agora, o facto de estar um pouco desligado das eleições, sobretudo do seu resultado e das perspectivas em relação ao que se vai seguir, não me impede de acompanhar a campanha (pré-)eleitoral, e os imensos dislates que têm sido ditos, sobretudo por parte do Pedro Passos Coelho. O homem é tão inábil, tão frágil, tão impreparado, e principalmente tão imaturo (politica e civilmente), que a perspectiva de que possa vir a ser primeiro-ministro é assustadora. Se ele tivesse alguém a tomar conta dele (o Cavaco, a Manuela Ferreira Leite, mesmo o Catroga, apesar do destrambelhamento), ainda é como o outro, mas o homem é que vai mandar, tomar decisões, e é perigoso pôr ao volante um tipo que acha que sabe conduzir porque lê as revistas de automóveis.

Tudo isto a propósito de mais um gag em que PPC tem sido pródigo (como é que um tipo que tinha as eleições ganhas por falta de comparência ainda se arrisca a perdê-las?), o de afirmar que é o mais africano de todos os candidatos a primeiro-ministro, por que tem ligações pessoais a África, sendo casado com uma guineense e tendo uma filha (de ascendência) africana, indo ao ponto de afirmar que casou com África! Desde logo, esta necessidade (‘zeliguiana’, d’aprés Zelig, o filme de Woody Allen) de agradar, de forma primária e demagógica, ao eleitorado para lhe provocar a adesão, constitui o grau zero da política e revela, como disse acima, a falta de preparação e da imaturidade de PPC. Imaturidade emocional mesmo, e não apenas política

Mas é pior. Sendo dito na circunstância de um encontro com elementos de uma comunidade africana, estas afirmações revelam um paternalismo de resquício colonialista inadmissível num político com as responsabilidades que PPC deveria ter. Pretender ganhar votos por ser ‘amigo dos pretinhos’ não é eticamente muito diferente do que tentar ganhar por pretender correr com eles. Além disso, se PPC é assim tão amigo dos africanos, não se percebe porque é que as comunidades africanas em Portugal não têm visibilidade política e representatividade partidária. Se PPC é ‘amigo dos pretinhos’ porque não os incluiu nas listas do PSD de modo a dar-lhes voz no Parlamento?

Um político que pretende ser primeiro-ministro tem de ter estofo de estadista. Tem de estar em pleno domínio das suas ideias e das suas palavras, em pleno domínio de si próprio. Tem de ser sólido, mesmo para poder ser flexível e adaptável. Não pode titubear, contradizer-se, dizer a primeira palermice que lhe vem à cabeça só porque, com mais ou menos manha, acha que ela lhe pode render votos. Um politico que quer ser estadista tem de saber quem é e que lugar pretende ocupar na vida. Não é na vida política, é na vida mesma, nela toda. Um político que quer ser um estadista tem de se projectar a si mesmo no futuro, e preparar-se e trabalhar para isso. Não tem a ver com idade. Tem a ver com maturidade, com sensatez, com sentido das coisas, com valores e princípios pessoais. Tem a ver com aquilo que cada um de nós constrói com o que a vida lhe dá. Tem a ver com carácter.
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