May 10th, 2011

rosas

adriana calcanhotto na CdM

O mais recente disco de Adriana Calcanhotto, O Micróbio do Samba, é muito bom. Um conjunto de doze sambas originais, que honram os cânones do género sem contudo se deixarem limitar pela tradição. Arranjos minimalistas, soluções que sugerem e exploram mais do que repetem a construção habitual do samba (o bloco, a caixa, o pandeiro, a cuíca), letras inspiradíssimas, feitas muito da sedução pelo som das palavras, que é habitual na Adriana, sempre à procura daquilo que é essencial no samba: melodias sedutoras e ritmos irresistíveis. Um grande disco, e um disco feliz. Adriana Calcanhotto em altíssima forma de compositora, escritora e autora de canções. Que prometia, aliás anunciava qualquer coisa de especial na sua apresentação ao vivo, ontem à noite, na Casa da Música.

E o concerto cumpriu tudo isso, e muito mais. Uma daquelas ocasiões mágicas, em que estamos a viver o deslumbramento e já com saudades daquela felicidade. Ou como diz a letra de um dos sambas do disco, "de bandeja eu te daria, se ao meu alcance, o lance da alegria, o presente deste instante". Mantendo o minimalismo do acompanhamento (Davi Moraes nas cordas, Alberto Continentino no contrabaixo, Domenico Lancellotti na bateria e percussões, a mesma secção rítmica do disco e Davi Moraes, com participações pontuais no disco, aqui a assegurar o violão), Adriana Calcanhotto juntou às canções uma panóplia de efeitos, sonoros (desde uma simples caixa de fósforos a gadgets electrónicos) e visuais (de confetis brilhantes a um secador de cabelo a fazer voar as folhas soltas de uma partitura), que transformavam cada canção num acontecimento, criando para cada uma delas um ambiente próprio, quase uma encenação.

O facto de Adriana estar impedida de tocar violão transformou estes concertos em ocasiões únicas, já que a cantora estava liberta para o jogo do palco. Mas o que mais me impressionou no concerto foi o domínio perfeito e total que Adriana Calcanhotto revelou da sua arte, a possibilidade de arriscar e acertar sempre. Tudo no concerto sai bem, tudo resulta e acrescenta, os originais que Adriana compôs para o disco e as versões criteriosamente escolhidas para dar mais sentido ao show (pena não ter cantado Dor de Cotovelo, de Caetano Veloso, que apresentou no concerto no CCB). Quase duas horas de concerto que revisitaram o samba, na visão depurada, subtil e sofisticada de Adriana Calcanhotto. Inesquecível.

O concerto terminou, em encore, com uma versão igualmente a puxar para o samba, de Vambora, um dos maiores, talvez o maior êxito popular de Adriana Calcanhotto. E com propriedade se pode dizer que "ainda tem o seu perfume pela casa".