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innersmile
Três notas a propósito do anúncio da morte de Osama Bin Laden, terrorista internacional.

A primeira para sublinhar o facto de Osama Bin Laden se ter tornado, nos quase dez anos que mediaram entre o ataque de 11 de Setembro e a data da sua captura e execução, numa espécie de personagem de banda desenhada, como os vilões do Batman ou do Super-Homem. Era o inimigo público n.º 1, a figura do cartaz do mais procurado, o homem que nos habituámos a odiar, como no romance de George Orwell. A dimensão das suas proezas, a evanescência da sua presença (os videos de má qualidade, as entrevistas improváveis), a dificuldade em o localizar (nada de ‘bin laden was here’), a mediação das suas mensagens ao mundo, tudo isso lhe dava a característica de mera personagem de cartão, como aquelas figuras recortadas em corpo inteiro que por vezes são utilizadas no marketing. Agora que ele morreu (se é que chegou a viver) não consigo que os meus sentimentos (de alegria ou de tristeza, não interessa) sejam mais, como dizer, concretos do que era a própria personagem.

Muita desta qualidade esvaecida de Bin Laden tem a ver o modo como percepcionamos o valor da verdade em política internacional. Num tempo em que o escrutinío mediático não era tão intenso, ou mesmo inexistente, não havia nenhum conflito entre aquilo que nos diziam que era a verdade e aquilo que acreditávamos ser a verdade. Houve depois uma fase em que acreditávamos nos media (uma fase de crescimento, digamos assim), em que dávamos valor à informação jornalística, o que acreditávamos ser a verdade era ainda aquilo que nos diziam ser a verdade. Hoje em dia, em que acreditamos que os media são tão manipulados quanto manipuladores da informação (transformada em mero soundbite para entretenimento das massas e também para efeitos de facturação), a verdade transformou-se numa mera crença. Escolhemos acreditar numa versão da verdade que nos é servida, e a política internacional (seja ela a crise financeira, o casamento real, a invasão da Líbia ou a morte de Bin Laden) é o terreno privilegiado em que a relação entre os media e os seus consumidores é um caso típico de cegos conduzindo cegos. Bin Laden morreu? Estava no Paquistão? Foi uma operação militar norte-americana que o foi resgatar e executar? O governo paquistanês sabia? O corpo foi sepultado no mar? O retrato que a Reuters se recusou a divulgar era mesmo de Bin Laden? A CIA confirmou a identidade de Bin Laden através de um teste ao seu ADN? A resposta a cada uma destas perguntas é aquela em que escolhemos acreditar.

A última nota é mais prosaica, digamos assim. Escolhendo acreditar que a verdade é exactamente aquilo que a CNN ou a Al Jazeera anunciam como tal, não deixa de ser estranho que Bin Laden afinal não estava refugiado numa caverna nas montanhas algures entre o Afeganistão e o Paquistão (como seria mais próprio de um mujaedin de banda desenhada), mas numa casa de dois ou três pisos integrada num compound localizado numa área residencial, de uma cidade a pouco mais de uma hora da capital do Paquistão, entre vizinhos que passavam à porta todos os dias (vi eu, a serem entrevistados pela Al Jazeera) e uma das principais academias militares paquistanesas, a escassas centenas de metros. O governo do Paquistão, aliado dos EUA na luta contra o terrorismo, não sabia do paradeiro de Bin Laden? Os serviços secretos norte-americanos descobriram a pista de Bin Laden através de um mensageiro identificado por prisioneiros de Guantanamo? Lá está, a verdade é aquilo em que escolhemos acreditar.
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