May 2nd, 2011

rosas

true grit, o livro


Tive sorte em ter visto o filme dos Coen antes de ter lido o livro de Charles Portis, True Grit, no qual o filme se inspira. É que se o filme era muito bom, o livro é melhor ainda, e a literatura tem sobre o cinema a vantagem de ser mais subtil, mais intensa e profunda, e é isso que o livro acrescenta em relação ao filme, intensidade, subtileza e profundidade (apeteceu-me substituir subtileza por delicadeza, ainda que pareça estranho empregar a palavra a propósito de uma história de cobóis).

E no entanto o livro serve ainda para valorizar o filme. É que salvo algumas questões de pormenor, o filme dos Coen é de uma fidelidade rigorosa em relação ao livro, de tal forma que é difícil ler o livro sem que as personagens ganhem os rostos dos actores do filme, e sem que nos venha à ideia a própria imagem que o filme criou para esta história.

O livro é uma jóia de concisão e ritmo. Li meia dúzia de páginas durante a semana, e li-o todo no Sábado. De certo modo, se não formos demasiado cautelosos, esta brevidade do livro pode ser perigosa, porque na ânsia da leitura podemos desprezar pormenores e nuances da narrativa que são demasiado importantes para serem desperdiçados. Os diálogos do livro, que são exemplares de como o uso do diálogo pode fazer progredir a narrativa, estão cheios de subtilezas, mais do que as afirmações peremptórias na narradora, que é a personagem principal do livro.

Depois, o livro está cheio de acção, como deve ser com uma verdadeira coboiada. Aliás, neste aspecto, o livro até parece que tem mais acção do que o filme. Não porque de facto o tenha, mas porque a descrição palavra a palavra faz-nos percorrer cada momento das passagens de acção. Ao contrário, o cinema tem sempre uma certa sofreguidão com o tempo, que faz com que as sequências da acção passem demasiado depressa.

Um outro aspecto em que o filme é muito fiel ao livro, é no humor. Há em toda esta narrativa, quer na versão literária quer na versão fílmica, um humor subtil, mas nem por isso menos fantástico.

Uma das vantagens do livro sobre o filme é o final. Apesar da sequência final do filme ser bastante emotiva, no livro ela ganha uma intensidade muito grande. Até porque como o livro se lê muito depressa, quando chegamos à parte final é assim uma espécie de explosão emocional que, além do mais, como que ilumina todo o livro e lhe dá (ainda mais) sentido. Ao mesmo tempo que nos deixa a nós, leitores, com a comovente impressão de que acabámos de participar numa daquelas ocasiões em que o melhor da natureza humana nos foi mostrado e explicado.

Tudo isto num livro que não tem duzentas páginas e que se lê num Sábado. A provar que as coisas mais profundas e intensas são sempre as mais simples.