May 1st, 2011

rosas

quanto é doce

Um post da Isabella no facebook, esta noite, trouxe-me a canção perfeita para o dia da mãe (e a entrada aqui no innersmile, é claro). Tão perfeita que parece inacreditável como é que eu nunca me tinha lembrado dela antes. Trata-se da canção Quanto É Doce, do José Afonso, do álbum Fura-Fura, de 1979, que, se não estou em erro, fazia parte da banda sonora de uma peça de teatro. Julgo que seria para Zé do Telhado, feito pel’ A Barraca (que eu vi, no TAGV), mas posso estar enganado.

Em 1984, durante os meses que passei em Londres a fazer quimioterapia, havia em casa da minha amiga N., onde eu e a minha mãe ficámos a morar, umas cassetes com música portuguesa, e uma delas tinha este disco do Zeca. Ouvimos aquilo vezes sem conta, e devo dizer que o nosso maior entusiasmo era para o grupo de canções do disco que se refere à Maria da Fonte e às revoluções populares do século XIX, nomeadamente As Sete Mulheres do Minho (Viva a Maria da Fonte com as pistolas na mão para matar os Cabrais que são falsos à nação).

Mas é claro que nunca nos escapou a maneira quase milagrosa como na canção Quanto É Doce o Zeca Afonso parecia estar a falar de nós os dois, e da terrível batalha que, desterrados e quase isolados em Londres (e o 'quase' é por causa dos amigos que lá fizemos, e a N. é mais do que amiga, é irmã), travámos contra o cancro, apesar de, como é óbvio, o contexto da canção ser outro completamente diferente.

De certo modo a minha mãe travou essa batalha mais ferozmente do que eu, que muitas vezes cedi ao desânimo e ao sofrimento. Mas ela não, nunca desistiu, fez tudo o que lhe parecia necessário fazer para me salvar, deu todos os passos, ultrapassou todos os obstáculos, correu todos os riscos. Seria preciso que eu escrevesse aqui o que foi o dia-a-dia daqueles seis ou sete meses, todas as coisas que ela fez, porque teve de fazer ou porque quis fazer, para alguma justiça lhe ser feita.

Hoje quando passei de carro para ir almoçar com eles, havia uma fila enorme de clientes à porta da florista. 'Maus filhos, como eu', pensei, 'que também deixam para a última da hora a compra de uma lembrança para a Mãe'. Mas segui sem parar, e quando cheguei lá a casa, liguei o computador, procurei o clip no YouTube, e pus a tocar esta canção. Foi a minha prenda do dia da Mãe. Não tanto a canção do Zeca. Mas o que ela significa para nós os dois, e isso só nós é que sabemos.



Quanto é doce quanto é bom
No mundo encontrar alguém
Que nos junte contra o peito
E a quem nós chamemos mãe
Vai-se a tristeza o desgosto
Põe-se a um ponto na tormenta
Quando a mãe nos dá um beijo
Quando a mãe nos acalenta
E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém