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filhas de safo + o dois amigos
rosas
innersmile

Ainda a terminar leituras de férias, acabei de ler um ensaio muito interessante, intitulado Filhas de Safo - Uma História da Homossexualidade Feminina em Portugal, da autoria do historiador Paulo Drumond Braga. A opção do autor foi fazer uma espécie de close reading das fontes, sinalizando referências a casos documentados de relações homossexuais entre mulheres, quase todos eles ligados a processos criminais, particularmente por parte da justiça religiosa. Há, para além disso, referências ao lesbianismo na literatura, e a casos mais ou menos conhecidos de lésbicas, nos tempos mais recentes.

Para além do interesse da leitura, o livro contém uma bibliografia preciosa, que passará, estou certo, a servir de referência para futuras histórias da homossexualidade em Portugal. Esta atenção às fontes e a preocupação com o suporte documental é, como referi, uma das mais-valias do livro, mas o seu maior interesse reside, é claro, no próprio texto, nomeadamente no texto histórico. Se conseguirmos abstrair dos maltratos a que eram submetidos gays e lésbicas (aqueles mais do que estas, segundo o autor), é muito mais apelativo, e mesmo fascinante, perceber a maneira como a sexualidade em geral, e a homossexualidade em particular, tem sido percepcionada ao longo dos tempos, em particular através do uso da linguagem. E neste aspecto o livro de Drumond Braga, para além de uma lição de história, assume-se como uma viagem, e até um jogo, pelas mentalidades e pela moral dos portugueses ao longo dos séculos.


Outro livro que li em férias foi um fascinante ‘romance’ da autoria de um escritor basco, Kirmen Uribe, intitulado O Dois Amigos. E escrevi romance entre comas, porque este volume é, do ponto de vista narrativo, muito sui generis. Assumindo-se sempre como tal, ou seja como um romance, o livro tem como fio condutor uma viagem de avião que o narrador (o próprio escritor) faz entre Bilbau e Nova Iorque. Ao longo dessa viagem vai pondo em ordem reflexões, notas e apontamentos sobre o livro que pretende escrever para contar a história da sua família, da aldeia piscatória de onde é natural, e do mister da pesca, que tem ocupado as diversas gerações da família, nomeadamente o avô e o pai.

O resultado é um romance fragmentado, feito de histórias e de memórias, de referências cruzadas, de pequenas (no tamanho) reflexões, de inventários e notas (até de referências ao Google e à Wikipaedia), de conversas e cartas, de pedaços de diários e outros documentos escritos. Adorei, este é o tipo de livro que eu gostaria de ser capaz de escrever (nos seus dias melhores acho que é um pouco isso o que vou tentando fazer aqui no innersmile), e seguramente um dos que mais gosto de ler. De resto o livro fez-me lembrar um outro livro sobre o mar e os homens, A Mulher de Porto Pym, do Antonio Tabucchi, quer no tema, quer na narrativa. Além de que eu tenho um fascínio especial por histórias relacionadas com o mar, com barcos e marinheiros.

E o que é mais fascinante é que depois de terminada a leitura do livro, parece que estamos muito próximos da história familiar de Kirmen Uribe, ou pelo menos deste autor/personagem cuja história familiar se nos vai revelando à medida que vamos juntando as histórias, os apontamentos, as notas, os fragmentos.