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síria
rosas
innersmile
Há pouco mais de um ano andei a passear pela Síria. Como acontece quase sempre, as recordações mais vívidas que guardo dessa viagem (para além do trauma de ter estado sempre doente) não são os monumentos ou os museus ou os passeios. São, é claro, aqueles tempos de dolce fare niente, os passeios a pé pelas ruas, o contacto, ainda que fugaz, com as pessoas. Lembro-me de uma tarde no souk de Alepo, desenfiado do resto do grupo, primeiro à procura de pistachios, depois a deambular de um lado para o outro, sem me perder, e de como esse passeio terminou numa das entradas do souk, junto à cidadela, a brincar com os miúdos que ali andavam, sempre sob os olhares atentos das mães, que me pediam para tirar fotografias às crianças.

Quando os telejornais nos trazem notícias de violência em diversas partes do mundo, normalmente reagimos com alguma indiferença, em parte por uma questão de defesa, não temos capacidade nem resistência emocional para lidar com tanta dor. Mas em parte essa indiferença tem também a ver com o facto de estarmos muitos distantes (geograficamente, mas também culturalmente) desses lugares e desses povos para podermos partilhar o seu sofrimento. Antigamente até se costumava dizer que um buraco na minha rua é mais importante do que uma inundação na China, para dar um pouco a medida de como a distância relativiza as tragédias.

Acontece que eu estive o ano passado na Síria, passeei pelas ruas dos bairros da cidade velha de Damasco, sentei-me nos tapetes que cobrem a mesquita dos Omíadas, ouvi os homens a rezar atrás do túmulo de Saladino, regateei o preço dos pistachios e dos sabonetes de azeite no souk de Alepo, embasbaquei-me com a grandeza do teatro de Bosra, sonhei com os caravaçarais de Palmira, ouvi uma rapariga rezar um padre nosso em aramaico, num mosteiro de uma pequena aldeia católica, onde outros jovens, vestidos a preceito, passeavam com os instrumentos musicais da banda filarmónica que, daí a instantes, tocaria na procissão.

Por tudo isso, não consigo ficar indiferente às notícias de que a situação na Síria piora de dia para dia, com a terrível repressão com que Bashar Al-Assad, em nome da sua família e do partido Baath, tenta evitar que a onda de contestação que tem varrido outros países árabes o arraste para a queda. A situação política e social na Síria, tal como nos outros países árabes, é demasiado complexa para podermos ter opiniões muito fortes, e sempre marcadas por uma grande ignorância no que às situações concretas diz respeito. Mas quando ouço as notícias e vejo as poucas imagens que chegam aos telejornais (a Síria sempre foi, em todos os aspectos, um país de grande secretismo no que diz respeito à sua presença nos media ocidentais) não consigo deixar de pensar no bulício e na alegria das ruas, na bonomia e na simpatia das pessoas, na grandeza e na beleza das cidades.