?

Log in

No account? Create an account

a sombra dos dias
rosas
innersmile


Aproveitei as férias, e os dias de descanso em São Pedro de Moel, para reler, quase em modo contínuo, ou pelo menos tão contínuo quanto possível, A Sombra dos Dias, de Guilherme de Melo. Já aqui tenho falado do GdM, e pelo menos em duas ocasiões falei sobre o livro: no dia 6 de Março de 2003, a propósito de uma outra obra do autor, e sublinhando a importância que autor e livro tiveram no meu processo de amadurecimento; e outra vez, no dia 3 de Julho de 2007, quando incluí o livro numa lista dos 5 romances gay essenciais da literatura portuguesa.

Foi uma experiência muito interessante ler um livro que nos tinha marcado quando o lemos ainda na adolescência (tinha 19 anos na altura, em 1981), e fazê-lo quando, quase com 50, já começamos a ter a sabedoria e a clarividência da velhice, e o lastro da nossa própria experiência pessoal. Naturalmente, há 30 anos o que mais me despertou no livro foi a experiência homossexual do autor. Nessa altura o GdM era praticamente ‘the only gay in the village’, e ler o livro foi, pela primeira vez, confrontar-me com um relato escrito sobre uma outra experiência homossexual. Além disso, tinha praticamente decorados (com receio de deixar algum sinal que pudesse ser facilmente identificado por outra pessoa) os números das páginas com as passagens mais picantes, para poder reler e reler e fantasiar um pouco (if you know what I mean).

Desta vez prendeu-me muito mais a ‘parte moçambicana’ do livro, quer no que toca ao próprio relato auto-biográfico, quer no que respeita à crónica de costumes do que era a vivência colonial de uma família de classe média. O Guilherme de Melo é da idade dos meus pais, e os seus percursos de vida tiveram alguns cruzamentos, de forma que, de alguma maneira, estou muito próximo dessa vivência que está documentada no livro.

Apesar do estilo romanesco do autor, A Sombra dos Dias é uma verdadeira auto-biografia disfarçada de romance ficcional. Com excepção dos nomes das personalidades com relevante estatuto público, todas as personagens do livro, aquelas que tiveram com o autor um relacionamento do foro da vida privada, íntima ou não, têm nomes falsos, ainda que aproximados ou pelo menos com referentes para os nomes reais das pessoas em causa. Como li o livro quase sempre na companhia dos meus pais, foi por isso um exercício interessante ir, com a ajuda da minha mãe, identificando algumas dessas pessoas, e ainda por cima com bónus, pois a minha mãe avançava sempre com uma pequena contextualização ou mesmo com alguma pequena história ou anedota.